Aguinaldo Silva pode gravar novela fora do Brasil
Embora muitos acreditem que a profissão de escritor de novelas seja algo glamouroso, ele faz questão de dar um choque de realidade, sempre com altas doses de bom humor: "Não pensem os jovens que aspiram à 'glória' de se dedicar a esta profissão que nela tudo é festa e fogos de artifício. Não – é apenas trabalho duro e contínuo. É ranger de dentes por conta da sensação de que, por mais que se corra, tal como o coelho de Alice estaremos sempre atrasados. É adrenalina. É crise hipertensiva, é dor na coluna, é a tendinite que você, obrigado a dedilhar 34 páginas por dia, tem que mandar pra casa do carvalho. Enfim, é desejar a morte no fim da noite e ter que estar mais vivo que nunca quando amanhecer o dia… E é também ter o couro duro – para ignorar o desdém da mídia, que acha nosso trabalho menor e por isso nos trata de forma às vezes desrespeitosa, e para relevar as exigências do telespectador, que nos pede o sacrifício de um leão por dia ou diz que 'a novela está ficando chata'. Escrever novela é isso: um salto no abismo, o voo cego de uma flecha em direção ao escuro absoluto lá no fundo", avisa Aguinaldo, adiantando que está bem adiantado: "Agora que já entreguei a sinopse à emissora, passo a seguir fielmente o meu cronograma de preparação: é como se fosse disputar uma olimpíada. Semana que vem terei dentista, oculista, check up médico e clínico… E se tudo estiver nos trinques, a partir daí: caminhadas de 90 minutos três vezes por semana; multi-super-vitaminas diárias e mais Glucosamina para fortalecer os ossos; olho na pressão arterial e na balança; puta-que-pariu pra qualquer problema que não tenha a ver com o trabalho, incluindo os problemas dos meus amigos; manter o despertador nas permanentes 5h30m, tomar banho frio – desde que a temperatura ambiente o permita – pra despertar até o mais insignificante dos músculos, comer bem, mas sem excessos… E sentar o bundão na cadeira diante do computador sabendo que só posso levantar de lá para o primeiro cafezinho depois de cumpridas pelo menos três horas de trabalho… E aí, quando levanto, descubro que não tenho mais pernas – e haja câimbras", desabafou.
E os conselhos - e avisos - não param por aí: "Você aí, que sonha em ser novelista, acha que será capaz de enfrentar estes sacrifícios todos?… Ou é melhor, por exemplo, ser deputado federal ou líder sindicalista? O problema é que quando você se torna um novelista descobre que não quis apenas sê-lo, aquele era o seu karma; o seu destino. E por ele vai ter que sofrer muito. Mas eu seria pessimista se dissesse que nesta profissão tudo é sofrimento. Não! Há alegrias também e muitas. A mais rampeira é quando você vê seu contracheque no fim do mês e diz pra si mesmo: 'bem… Até que não me dei mal na vida'. E a maior de todas é quando encontra um telespectador na rua e ele o aborda com o maior carinho e lhe diz: 'acho o seu trabalho o máximo!'. E, sem falsas e inúteis modéstias, querem saber? Isso acontece com este novelista que vos fala a todo instante… E ele adora!".
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