Caetano Veloso não deseja controle sobre biografias
São mais de sete meses desde que uma das maiores crises da música brasileira envolveram a classe artística, biógrafos, editores de livros, pesquisadores e críticos
Da AE
Foto: Reprodução do Facebook
O tempo, que Caetano Veloso
diz ser um dos deuses mais lindos, trabalha aos poucos. Mais de um ano
depois de o baiano lançar Abraçaço, que fechou uma proposta de som
relaxada e crua, iniciada com Cê e seguida com Zii e Zie, recoloca-se em
cena com a versão ao vivo do álbum do abraço, em CD e DVD. Pode ser o
mesmo homem de olhar fixo e movimentos curtos, delimitados no palco por
um pedestal à sua frente e três músicos ao redor, pode não ser. “A gente
vai mudando sempre”, diz ele, ou melhor, escreve, por e-mail, na
primeira vez em que irá se manifestar sobre o assunto biografias não
autorizadas fora da coluna semanal que assina no jornal O Globo.
São mais de sete meses desde que uma das
maiores crises da música brasileira envolveram a classe artística,
biógrafos, editores de livros, pesquisadores e críticos. Ao saberem que o
Supremo Tribunal Federal estava prestes a julgar uma ação proposta pelo
Sindicato Nacional dos Editores de Livros para a alteração da chamada
lei das biografias, liberando os lançamentos de autorização prévia dos
biografados ou de seus herdeiros, os artistas que já estavam associados
em um grupo chamado Procure Saber se manifestaram para que a lei não
sofresse alteração.
Foi o estopim de um embate intelectual
que durou meses. Caetano, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Erasmo Carlos,
Djavan e Chico Buarque estavam na associação que tinha Paula Lavigne,
empresária e ex-mulher de Caetano, como presidente. Os biógrafos
acusaram o grupo de trabalharem contra a liberdade de expressão e os
artistas se defenderam, alegando direito à privacidade.
As reações na sociedade foram fortes e o
STF se sensibilizou, realizando uma audiência pública antes de votar a
questão. Nos bastidores, a vitória da ação dos editores é dada como
certa, ao mesmo tempo em que o Congresso Nacional aguarda a votação de
um projeto de lei sobre o mesmo tema, que também deve fazer alterações
liberando as biografias de autorizações.
As perguntas enviadas a Caetano sobre o tema biografias eram três, e assim foram respondidas:
1. Caetano, você acredita que houve
muito desgaste dos artistas com as discussões acerca do Procure Saber no
ano passado? “Não muito. São temas setoriais, que não vão tão fundo em
mim.”
2. Sua posição com relação ao assunto
biografias não autorizadas segue a mesma? Em breve o STF deve colocar o
tema em julgamento. “A mesma qual? Sempre fui pela liberação total das
biografias. Quando meus amigos queridos se mostraram contra, procurei
entender o que eles diziam e explicar um pouco a quem me lesse no Globo.
Mas, como se pode ver lá, não mudei muito o essencial do que pensava.
De todo modo gostei de fazer contraponto ao rolo compressor da imprensa.
Não me preocupei muito. Como já disse, esses assuntos não são muito
meus.”
3. Acredita ser possível termos um meio
termo aceitável nesse processo, algo que proteja os artistas de invasões
de privacidade e possíveis mentiras ao mesmo tempo em que garanta a
publicação de uma biografia sem autorização prévia? “Sempre pode haver
bom senso. Mas, de minha parte, não desejo nem preciso de controle sobre
as biografias por parte dos biografados.”
Ainda que Caetano tenha defendido suas
posturas em suas colunas, não havia sido tão direto como nesta última
frase. Agora, ficou mais claro.
Diante de uma questão anterior, que
rondava as polêmicas sobre as biografias sem entrar nelas diretamente,
Caetano devolveu no mesmo tom impreciso: Caetano, parece que dez anos
separam o disco (Abraçaço) de estúdio do ao vivo. Digo isso pela
intensidade de emoções que acredito ter vivido no último ano. Você ainda
é o mesmo Caetano que aparece no disco? O que mudou? “A gente vai
mudando sempre. Às vezes há fases de transformações mais nítidas. Não
creio que tenha sido tanto assim agora. Talvez mas não estou certo. Você
viveu muitas emoções fortes? Não entendi direito. Eu próprio vi
mudanças importantes, como a morte de minha mãe. Também houve eventos
sociais marcantes, como as manifestações de junho. Não sei do que
exatamente você está falando.”
Caetano está em férias na Bahia, onde
diz não pensar em projetos novos: O que vem por aí agora, Caetano? Já há
um projeto em construção? “Nada de novos projetos. E ainda tenho muito
que fazer Abraçaço em outros países.”
Foi seu amigo Chico Buarque quem
levantou a bola da crise da canção, do rompimento dos autores com o
formato tradicional de letra, harmonia e melodia.
Quando Abraçaço saiu, com bases obscuras
e sujeira indie, a questão se fez novamente atual: afinal, há um
esgotamento do velho formato da canção? E voltar a ele depois de
Abraçaço não soará um retrocesso? “Você acha que Abraçaço não é um álbum
de canções? Eu acho que é. E suponho que farei canções sempre, mesmo
que faça algo diferente disso também, como fiz em Araçá Azul.”
O formato do disco ao vivo suscita outra
discussão. Eles seriam necessários aos artistas ou atenderiam uma
demanda ainda imposta por gravadoras? Por trazerem muito do material que
já foi mostrado, seria um produto artístico menor? Caetano: “Nunca
achei que fossem desnecessários. O núcleo do material foi mostrado em
disco de estúdio (nem sempre: em Livro fiz de Fina Estampa um ao vivo em
que não havia nenhuma das canções gravadas em estúdio), mas o jeito de
cantar e tocar é diferente. E há a interação entre o repertório novo e
canções de outros tempos e, às vezes, de outros autores.”
Caetano só não respondeu uma questão
enviada pela reportagem: Caetano, talvez Triste seja, de fato, a música
mais triste que você tenha feito. Você é um homem triste?
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