Stefan Zweig está de volta
O autor austríaco que se suicidou no Brasil é resgatado com lançamentos de livros inéditos em português e do filme O Grande Hotel Budapeste
LUÍS ANTÔNIO GIRON
O escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) é um velho conhecido do
público brasileiro. Tão velho que restam poucos leitores do tempo em que
ele era o autor mais traduzido e popular do mundo, nas décadas de 1920 a
1940, conhecido por suas histórias de psicologia penetrante e enredos
repletos de mistério e romantismo. Alguns de seus 36 volumes – como a
biografia Maria Antonieta (1932) e o ensaio Brasil, um país do futuro (1941),
além de 61 de seus 841 ensaios – foram lançados quase ao mesmo tempo em
Viena e no Rio de Janeiro, fato raro naqueles tempos. Zweig foi uma
celebridade literária mundial no início do século XX. Era perseguido nas
ruas por jornalistas e admiradores.
A glória de Zweig começou a minguar em 23 de fevereiro de 1942, quase
no instante em que tomou uma dose letal de calmantes, estendido na cama
ao lado da mulher, Lotte, no bangalô da rua Gonçalves Dias, 34, na
cidade fluminense de Petrópolis. Cansado de fugir do avanço nazista –
fora de Viena para Paris, de Paris para Londres, de Londres a Nova York e
dali ao Brasil, em 1942 – e desanimado diante da ideia de recomeçar a
vida aos 60 anos, escreveu um bilhete de suicídio. Nele, afirmou que,
apesar de amar o Brasil, preparava-se para morrer “agora que o mundo de
minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa,
autodestruído”. E encerrou: “Assim, em boa hora e conduta ereta, achei
melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura
alegria, e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo
todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.
Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes”.Sua redenção se dá agora, impulsionada pelo cinema e pela revisão de seu legado. O diretor americano Wes Anderson se apaixonou pelas histórias de Zweig quando buscava livros antigos no sebo Strand, em Nova York. Descobriu o romance Cuidado da piedade (lançado em 1938 em alemão e, no ano seguinte, no Brasil) numa rara reedição. “Li as primeiras páginas e pensei: é meu novo escritor favorito!”, diz. As histórias e a biografia de Zweig serviram de base para o filme O Grande Hotel Budapeste, que estreou em fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale, e chega ao Brasil em 3 de julho. Na semana passada, saiu nos Estados Unidos uma nova biografia, The impossible exile: Stefan Zweig at the end of the world (O exílio impossível: Stefan Zweig no fim do mundo), do escritor americano George Prochnik. Segundo ele, Zweig é um dos últimos vultos da Viena fin-de-siècle, cuja vida cultural era tão intensa que beirava o “fanatismo pela arte”, como disse Zweig. “Sua vida ilumina questões como a responsabilidade do artista em tempos de crise, o papel da política nas artes e a importância da arte na educação”, diz Prochnik.
A estreia do filme e o lançamento da biografia bastaram para que as obras de Zweig passassem a ser relançadas e reabilitadas pelos críticos europeus e americanos. Segundo o editor inglês Adam Freudenheim, a razão do esquecimento de Zweig tem motivo: seus livros ficaram datados, assim como o desapreço britânico por traduções de obras antigas. “Os livros de Zweig são produtos da Europa antes da Segunda Guerra Mundial”, afirma. “O inglês se modifica muito. As velhas traduções soam estranhas ao público atual.”
O Brasil também viu as obras de Zweig rarear ao longo dos anos. Por duas razões. A primeira foi o suicídio, que o colocou sob suspeição moral num país então de maioria católica. A segunda foi o ensaio Brasil, um país do futuro, rejeitado pelos críticos porque serviu como peça de propaganda do governo ditatorial de Getúlio Vargas. De acordo com o jornalista Alberto Dines, biógrafo de Zweig, o livro elogioso foi usado como moeda de troca para Zweig e sua mulher conseguirem visto permanente no Brasil, algo dificílimo no período getulista. “Ele se comportou como puxa-saco de Getúlio. Defender o Brasil naquele tempo era de mau gosto”, afirma Dines. “Zweig exaltou menos o Brasil que seu povo. Era um manifesto sincero que ele planejava desde 1936.” No livro, Zweig defendia o multirracialismo brasileiro como antídoto ao avanço do programa da “raça pura” do nazismo.
Desde 2013, o interesse por Zweig retornou entre os leitores brasileiros por causa de lançamentos de inéditos e raros. Dines organiza e introduz obras de Zweig fora de catálogo há muitos anos, pela editora Zahar. Em 2013, saíram Maria Antonieta e O mundo insone, com ensaios inéditos. Em julho, é a vez de Três novelas femininas (176 páginas, R$ 39,90, o livro, e R$ 24,90, o e-book), com os textos Medo, Carta de uma desconhecida e 24 horas na vida de uma mulher. Em novembro, chegam as memórias O mundo que vi, de 1942.
No próximo ano, Dines lançará A Unidade Espiritual do Mundo, palestra inédita que Zweig proferiu em 1936 na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro. “Ele se mostra avesso à automação, mas preconiza a união espiritual da humanidade. Zweig vislumbrou a globalização de uma forma positiva.”
A reabilitação de Zweig poderá trazer ao país que ele adorou e adotou dezenas de obras ainda não traduzidas: biografias e romances repletos de arte e humanidade. Zweig foi o derradeiro escritor movido pelos ideais do século XIX. Ideias que, se perderam a eficácia no mundo durante o século XX, poderão recobrar sua força e ensinar muito à civilização tecnológica do século XXI.
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