Nos confins da África do Sul, Richtersveld transforma aridez em poesia
HAROLDO CASTRO (TEXTO E FOTOS), DA ÁFRICA DO SUL
Nosso destino é o Parque Nacional Richtersveld, situado em um cantinho
perdido da África do Sul, na fronteira noroeste com a Namíbia, a 1.000
km da Cidade do Cabo. O parque é o paraíso das plantas suculentas,
aquelas que guardam água no interior de suas folhas para sobreviver às
condições extremas. Muitas espécies só existem na região.
Essa não é minha primeira visita a Richtersveld. Estive aqui duas vezes
no passado: em 1999, com meu filho mais velho Tamino e, em 2004, com o
colega conservacionista John Martin. Sempre com o mesmo objetivo:
documentar a flora endêmica.Nas duas visitas anteriores a Richtersveld eu não tinha tido tempo de visitar o Vale dos Kokerbooms. Dessa vez, é prioridade. O kokerboom é uma planta aloe – da mesma família que a babosa – que pode atingir nove metros de altura e viver mais de 400 anos. O nome africâner koker significa aljava, o estojo cônico para carregar flechas. O tronco jovem da planta, por ser leve e resistente, era utilizado com esta finalidade pelas populações locais.
O vale, em quilômetros, não é distante de onde dormimos. Mas a estrada é péssima. Dirigimos sobre a rocha virgem, nos deparamos com enormes pedregulhos e temos de vencer buracos erráticos. Trocamos a direção a cada 30 minutos, tamanho é o gasto de energia para conquistar o terreno. O copiloto de turno tem uma atuação fundamental e precisa sair do carro constantemente para checar obstáculos e ajudar a manobra. Atravessamos os desafios e, com paciência e perseverança, chegamos ao vale.
No extremo de cada ramo, nascem cachos de folhas que possuem, no seu interior, a mesma gosma de nossa babosa. As folhas mais jovens ainda são verdes, guardando a clorofila. Com a idade, elas se colorem, gradativamente, de amarelo, laranja, avermelhado e marrom. Uma árvore kokerboom pode chegar a ter mais de 100 cachos; sua linha simples – tronco, galhos e folhas carnudas e pontudas – é como um emblema da região.
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