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29 de setembro de 2014


LANÇAMENTO


Em novo romance, Elvira Vigna faz da literatura um trajeto das dúvidas

Um dos mais inquietantes nomes da literatura contemporânea

 / Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Em um dos momentos do novo romance da escritora Elvira Vigna, a narradora diz que anota “como se escrever não fosse resolver, só deixar pronto”. Nome importante para se entender e percorrer a literatura brasileira atual, a autora carioca radicada em São Paulo parece emprestar à personagem de Por escrito (Companhia das Letras) uma das suas impressões sobre o fazer artístico. Não esperem dela harmonias maquinadas ou personagens que vão do ponto A ao ponto B sem desvios, porque está na natureza do seu caráter ou no destino ser assim.
Por escrito é um livro pronto, mas não resolvido. Na verdade, a produção de recente de Elvira parece se encaixar nessa definição: suas narrativas não são a busca por desvendar a incógnita que equilibra a equação, a coerência que explica as errâncias dos personagens. Assim como a vida, neste romance e no anterior, O que deu para fazer em matéria de história de amor, não há a solução que se finge descobrir por acaso ou por cálculo. Deixar pronto é apenas terminar, talvez formular bem a inquietação sem evitar as suas quinas e farpas.
A trama do livro mostra uma narradora, Valderez, escrevendo para o seu antigo amante na véspera dos dois morarem juntos. O passado deles, a ex-mulher, Izildinha, a relação entre Pedro, irmão gay de Valderez, e uma bailarina, as viagens cansativas para divulgar os perfis de plantadores de café da sua empresa são parte desse texto, que parece um diário tanto quanto um diálogo. Não é um enredo coeso, comportado, porque isso seria mais uma armadilha das convenções que se cria para os romances, a vida, os conceitos. Elvira trabalha com uma personagem que tateia o objetivo de “atar, não as duas pontas da vida, mas bem mais do que duas” sabendo que ele é impossível
A profissão de Valderez exige viagens constantes para outras cidades e continentes – uma sucessão de hotéis, congressos, aeroportos, distâncias. A prosa da autora reflete esse momento de contemplar a repetição (um forma singular de vazio) e extrair dela alguma reflexão sobre a própria vida, sem a ilusão de resolvê-la. Elvira, através da linguagem e do mergulho nessa imperfeições, cria personagens que – pegando a definição de José Luiz Passos para as criações de Machado de Assis – são mais próximos de pessoas do que de tipos. O que nunca é um feito pequeno na literatura ou em qualquer outra expressão artística – prova de que sua escrita é indispensável para o panorama atual.
DÚVIDAS
“Literatura para mim é apresentar dúvidas, convidar o outro a discuti-las. Nunca apresento certezas”, conta Elvira, em entrevista ao JC por e-mail. O norte dos seus romances são as incertezas e, em Por escrito, romance mais longo que as obras anteriores, o leitor se vê no oposto de uma história policial, de um romance psicológico comum. “Resolver uma trama ou um mistério, por exemplo, é o objetivo de livros voltados ao mercado. Resolver problemas pessoais do autor pode ser o objetivo da escrita chamada ‘fluxo de consciência’. E claro, resolver o suposto problema do leitor é o que pretendem os livros de autoajuda. Não são dialógicos, são monólogos”, aponta.
A veia analítica e crítica da literatura de Elvira se reflete nas suas falas e posições. Convidada da Feira do Livro do Vale do São Francisco na semana passada, Elvira tem apontado o preconceito do olhar crítico sobre a literatura feita por mulheres no Brasil. Esses livros são, muitas vezes, tratados como arte de um gênero próprio, enquanto a literatura feita por homens é chamada convenientemente apenas de “literatura”. Na visão da autora, há pouco avanço na questão, principalmente na curadoria de eventos. “Não vejo melhora não. A discriminação existe. E a participação, quando existe, é pelo motivo errado: ‘precisamos convidar algumas mulheres para não pegar mal’ é uma frase que você consegue ver escrita na testa dos que não querem ser vistos como machistas”, afirma.

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