Um tuíte pode mudar o mundo?
Como o Twitter ajudou a transformar a sociedade – da organização de protestos na Primavera Árabe à prevenção da contaminação radioativa em Fukushima
DANILO VENTICINQUE E ISABELLA CARRERA
Em julho de 1999, milhares de estudantes iranianos se reuniram em Teerã para protestar contra o fim do jornal reformista Salam,
banido pelo Poder Judiciário do país por expressar opiniões liberais. A
manifestação pacífica foi esmagada pela polícia, que matou pelo menos
cinco estudantes, feriu 200 pessoas e prendeu mais de 1.000. O protesto
perdeu força. O massacre foi pouco comentado na imprensa internacional, e
os estudantes mortos são anônimos até hoje. Quase dez anos depois, em
junho de 2009, os iranianos voltaram às ruas num protesto contra fraudes
nas eleições presidenciais. A repressão policial foi violenta, mas as
manifestações populares continuaram a ganhar força e a receber apoio de
simpatizantes em várias partes do mundo. A estudante Neda Agha-Soltan,
assassinada com um tiro no peito durante um protesto, tornou-se um
símbolo do movimento. O vídeo que registrava o momento de sua morte foi
visto por milhões de pessoas. Os protestos se estenderam por sete meses e
viraram um marco da indignação do povo iraniano contra o regime
teocrático.
>> Como milhões de tuítes viram dinheiroÉ possível procurar na política interna iraniana os motivos para a enorme diferença entre os resultados dos dois protestos. Talvez a principal explicação esteja em San Francisco, a quase 13.000 quilômetros de Teerã: os manifestantes de 2009 tinham acesso ao Twitter.
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Outros exemplos mostram que o poder de influência do Twitter vai além do Oriente Médio e das manifestações populares . Após o desastre nuclear de Fukushima, no Japão, a principal fonte de informação foi um perfil no Twitter com atualizações sobre o nível de radiação e os procedimentos de segurança feitos na usina. Durante os bombardeios recentes na Faixa de Gaza, o Twitter se reafirmou como a melhor ferramenta para que a população descobrisse que lugares estavam sob ataque e compartilhasse informações sobre o conflito.
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Usos como esse desmentem a tese de que as redes sociais são um ambiente em que predominam o egocentrismo e a superficialidade. A era do selfie também é a era da colaboração on-line para resolver problemas globais. “A velocidade das redes sociais e a intensidade da troca de informações acentuam características negativas, como a superficialidade e a virulência”, diz Robert Cavalier, professor da universidade Carnegie Mellon e autor do livro The impact of internet in our moral lives (O impacto da internet nas nossas vidas morais). “Quanto mais concreto for o assunto e mais específicas as opções para a colaboração, mais útil será a contribuição social da internet.” Momentos de crise, como o conflito em Gaza, o desastre de Fukushima e os protestos no Oriente Médio, são períodos em que a influência das redes se acentua. Para acarretar mudanças de longo prazo, o poder de transformação é menor. “Criar uma revolução nas redes sociais é muito mais fácil que manter uma democracia”, diz Sorensen. “Mas a contribuição delas para os direitos humanos em situações críticas é inestimável.” Um feito e tanto para um site com apenas oito anos de existência – e um limite de 140 caracteres.
>> A força do Twitterhttp://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/08/bforcab-do-twitter-trecho.html
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