Dilma Rousseff: vitória no sufoco
Numa das eleições mais equilibradas e emocionantes da história brasileira, Dilma é reeleita presidente da República
LEANDRO LOYOLA E ALBERTO BOMBIG
>> Reportagem de capa de ÉPOCA desta semana
Na
eleição mais emocionante da história do país, Dilma Rousseff (PT) foi
reeleita presidente da República com aproximadamente 3 milhões de votos a
mais que Aécio Neves (PSDB). É a quarta vitória seguida do PT, a mais
apertada, obtida em meio a números ruins na economia e denúncias de
corrupção. Os dois temas estiveram presentes nas eleições em que PT e
PSDB se enfrentaram desde 2006. Na ocasião, vivia-se o início da crise
do mensalão, mas a economia ia bem – e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
derrotou Geraldo Alckmin (PSDB) por uma diferença de 7 milhões de votos.
Em 2010, corria o processo do mensalão, mas eles estavam fora dos
holofotes – e a economia, depois da crise de 2008, se recuperava bem. O
crescimento em 2010 foi de 7,5%, e Dilma derrotou José Serra por 12
milhões de votos. Em 2014, um novo escândalo de corrupção emergiu
durante a campanha eleitoral – o “petrolão” –, e os números da economia
mostravam alta da inflação e crescimento econômico baixo. Mesmo assim,
Dilma se elegeu.O mérito pela vitória de Dilma Rousseff é, antes de tudo, de Dilma Rousseff. Ela demonstrou, sobretudo, resiliência. Nas três eleições anteriores vencidas pelo PT, o partido nunca esteve em desvantagem nas pesquisas ao longo da campanha eleitoral. Em 2014, a campanha de Dilma enfrentou dois momentos de baixa. O primeiro foi quando Eduardo Campos (PSB) morreu num desastre aéreo, Marina Silva tornou-se candidata no lugar dele e, nas simulações do segundo turno, aparecia na frente de Dilma. Houve dentro do PT quem ressuscitasse o bordão “Volta, Lula!”. Dilma não se abateu.
O segundo momento foi quando, na primeira semana do segundo turno, ela foi ultrapassada por Aécio Neves, que surfava o topo de uma onda ascendente. Nesta semana inicial do segundo turno, para piorar, na quarta-feira dia 8, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, os dois principais delatores do esquema conhecido como “petrolão”, afirmaram à Justiça que os diretores da Petrobras cobravam 3% de propina nos contratos da estatal. O dinheiro, segundo eles, se destinava a “agentes políticos” e era recolhido, no caso do PT, por operadores como João Vaccari, tesoureiro informal do partido – indicado para a tarefa pelo ex-ministro José Dirceu, segundo Paulo Roberto. O PSDB usou as denúncias em sua campanha.
Dilma também fez várias escolhas acertadas na reta final da campanha eleitoral. Uma delas foi criticar, sistematicamente, o desempenho de Aécio quando governador de Minas Gerais. Ao abandonar o governo de Minas, em 2010, Aécio tinha uma avaliação positiva de 92% dos eleitores. Fez uma revolução na educação a bordo da qual Minas ostenta, sistematicamente, os melhores índices nas avaliações do ensino secundário. Dilma venceu em Minas no segundo turno, com aproximadamente 500 mil votos a mais que Aécio. Ela ganhou também com boa margem no Rio de Janeiro, Estado onde subiu nos palanques dos dois candidatos que disputaram o segundo turno, Luiz Fernando Pezão e Marcelo Crivella. No Rio, Dilma venceu por cerca de 800 mil votos. Sabia-se que Dilma ganharia com uma diferença enorme no Nordeste e perderia na soma dos Estados do Sul do Brasil, além de São Paulo – o maior colégio eleitoral do país, onde Aécio, como esperado, livrou uma vantagem de quase 7 milhões de votos. Nesse cenário equilibrado, as vitórias apertadas em Minas e no Rio, segundo e terceiro colégio eleitoral do país, selaram o triunfo de Dilma.
Ao longo da campanha, Dilma teve de explicar os números ruins na área da economia. Ela se beneficiou de um fato: tais números ainda não afetaram o dia a dia da totalidade da população. A inflação está em alta, mas controlada graças ao represamento do reajuste nos combustíveis. O desemprego, que começa a dar sinais de alta no Sudeste, continua baixo no Nordeste – no total, em setembro, ficou em 4,9%, de acordo com a Pequisa Mensal de Emprego do IBGE. Os indicadores macroeconômicos, aqueles difíceis de explicar e fáceis de manipular, mostram que a situação é preocupante e renderá problemas em um futuro próximo. O país deverá crescer menos de 0,5% este ano, entre outras coisas por causa de uma crise de confiança dos investidores. No segundo mandato, recuperar essa confiança deverá ser uma das prioridades de Dilma.
O senador Aécio Neves em seu primeiro discurso depois do resultado das eleições. Ele será o líder da nova oposição (Foto: Hugo Cordeiro/Nitro)
As dificuldades de Dilma não deverão se restringir aos gabinetes, plenários e palácios. O recorte geográfico da votação mostra um país dividido entre as regiões Norte-Nordeste e Sul-Sudeste. O resultado das urnas, comparado com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para renda e escolaridade, permite dizer que há uma divisão de votos também entre classes sociais, embora menor que em eleições anteriores. Dilma, que encampou o discurso petista do “nós contra eles”, sai da eleição como uma candidata que apostou nessa divisão para vencer. Apesar do apelo à união em seu discurso de vitória, ela ressuscitou um tema divisível: a ideia de um plebiscito para a reforma política – já rejeitado pelo Congresso no ano passado. Para completar, nem citou o candidato derrotado, uma praxe de qualquer vitorioso.
Aécio, ao contrário, cumprimentou Dilma pela vitória. Ele sai da campanha como a encarnação de um sentimento oposicionista que nem Alckmin nem Serra conseguiram mobilizar. “Acabei de ligar e parabenizar a presidente reeleita, e ressaltar que a prioridade do governo dela deve ser unir o Brasil em torno de um projeto que beneficie todos os brasileiros”, disse, ao reconhecer a derrota.
O favorito à presidência da Câmara é o deputado Eduardo Cunha, do PMDB, o homem que enfrentou Dilma no início do ano. A CPI da Petrobras será fortalecida pela delação premiada do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, com um nível de revelações e potencial de danos inédito na história recente. Dilma, uma líder claramente refratária à negociação política, terá de demonstrar disposição e habilidade que nunca teve para essa tarefa. Terá a dificuldade de lidar com políticos que não gostam de seu estilo e com quem tem pouca credibilidade. Os indicadores sociais também pioram, e o desemprego já dá sinais de alta, especialmente na indústria. Sindicatos de metalúrgicos registram mais demissões do que contratações em suas bases. Dilma tem, portanto, dois desafios principais. Primeiro, arrumar as contas públicas e conquistar a confiança dos investidores, para que o país volte a crescer. Segundo, unir o Brasil, que saiu dividido das urnas. Pelo bem do país, espera-se que ela tenha sucesso.
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