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5 de novembro de 2014

Aldeia de Serra Leoa perde 10% da população para o ebola

Andrew Harding
Correspondente da BBC News na África
  • BBC
    Vulnerabilidade de crianças é uma das grandes preocupações das autoridades sanitárias em Serra Leoa Vulnerabilidade de crianças é uma das grandes preocupações das autoridades sanitárias em Serra Leoa
A quatro horas de viagem ao norte de Freetown, a capital de Serra Leoa, a aldeia de Kigbal se transformou no epicentro de um novo surto de ebola no país.
Segundo autoridades de saúde locais, 30 pessoas morreram vítimas do vírus nos últimos dias em Kigbal. Isso equivale a 10% da população da aldeia.
A reportagem da BBC chega ao vilarejo por uma estrada de asfalto perfeito, que divide Kigbal ao meio. No lado direito, 30 crianças estão de pé, aglomerando-se à sombra de uma árvore.
"Viemos para este lado para ficar mais seguros", diz Mabinti Kamara, de 14 anos.
"Um monte de gente morreu ali. Eles levaram meu pai. Não sei o que aconteceu com ele", diz a menina.

Epidemia de ebola na África provoca temor mundial

3.nov.2014 - Um pesquisador da Comissão de Energia Atômica (CEA) verifica um diagnóstico de ebola em Marcoule, na França. Pesquisadores da Life Science Division (DSV) desenvolveram um teste de diagnóstico rápido para o vírus, chamado ?eZyscreen?. O teste é feito a partir de uma gota de sangue, plasma ou urina e é capaz de dar uma resposta em menos de 15 minutos para pacientes que estejam com sintomas da doença. Um protótipo estará disponível em breve para permitir a validação clínica, antes da fase de industrialização e produção pela empresa francesa Vedalab, líder europeu de testes rápidos Jean-Paul Pelissier/Reuters
Isolamento de doentes de ebola no vilarejo de Kigbal é precário e não há garantia de que contágio possa ser controlado
Perguntamos às crianças se algum deles perdeu parentes para o ebola. Em silêncio, quase todas levantam as duas mãos. Várias parecem febris.

'Corpos em toda parte'

É fácil entender por que as crianças foram para o outro lado da rua. Do lado oposto estão uma mulher e uma criança, praticamente ocultas pela sombra de uma árvore.
"Minha cabeça está girando", diz Adamsay Kamara, com a voz fraca, ao ver que atravessamos a rua para ficar perto dela.
"Ela está com ebola, não podemos chegar perto", avisa Alimamy Baymaro Lamina II, líder tribal em Kigbal.
Horas antes, o líder explica, uma equipe funerária tinha vindo à aldeia coletar corpos caídos na entrada dos casebres.
"Os corpos estavam em toda parte. Todos naquelas casas estão mortos".

Saiba mais sobre ebola
  • O que é o ebola?
    A doença é causada pelo vírus ebola e, no surto atual, já matou quase a metade dos pacientes diagnosticados com a doença. Tem sintomas como febre, vômito, diarreia e hemorragia.
  • Como se contrai o vírus?
    O ebola é transmitido pelo contato direto com sangue e fluídos corporais (suor, urina, fezes e sêmen) de pessoas contaminadas e de tecidos de animais infectados.
  • Quais países têm mais casos de ebola?
    Guiné, Libéria e Serra Leoa vivem surtos de ebola. Na Nigéria houve casos da doença, mas o vírus deixou de ser ameaça no país. EUA e alguns países europeus resgataram compatriotas infectados para tratamento.
  • Quem tem mais risco de contrair a doença?
    Parentes dos pacientes e os profissionais de saúde que tratam os pacientes com ebola são os indivíduos em maior situação de risco. Mas, qualquer pessoa que se aproxime de infectados ou de seus corpos sem vida se coloca em risco.
  • O ebola tem cura?
    Não há remédio que cure o ebola propriamente. Existem apenas medicamentos e vacinas experimentais sendo testadas no Canadá, nos Estados Unidos e na África, que surtiram o efeito desejado, isto é, zeraram a carga viral dos infectados. Quem sobreviveu ao tratamento continuará sendo monitorado por um tempo.
Vulnerabilidade de crianças é uma das grandes preocupações das autoridades sanitárias em Serra Leoa
Alguns metros adiante, um idoso está de pé fora de sua casa, gritando para chamar nossa atenção.
"Por favor, curem ela", diz Momo Sessey, apontando para sua mulher, Fatu Kanu, deitada num banco de mandeira. Ela está tossindo.
"Estou com medo dela e não quero tocá-la. Por favor, levem-na para o hospital".
Damos a ele alguns pares de luvas de borracha e o aconselhamos a dar água para a mulher.
"Quente ou fria", Sessey pergunta.

Frustração

Crianças levantam os dois braços quando perguntadas quem delas perdeu um parente em Kigbal
Lamina II apenas balança a cabeça e se afasta, sem esconder sua frustração.
"Essa situação me deixa extremamente zangado. Tenho pedido constantemente ajuda à Organização Mundial de Saúde e ao Programa Alimentar Mundial", queixa-se.
"Eles dizem que vêm ajudar, mas até agora ninguém apareceu."
Serra Leoa é o país mais afetado pela epidemia do ebola. Dos 4.951 casos de morte registrados até agora, quase metade deles (2.413), ocorreram no país.
Há frustração com o ritmo lento dos esforços internacionais humanitários na região.
Recentemente um profissional de saúde levou sete crianças vulneráveis de Kigbal para uma área mais distante da aldeia, para tentar oferecer condições de quarentena melhores que apenas o outro lado do asfalto.
"Minha cabeça está doendo", diz Alusin, de seis anos, antes de voltar a sentar com as outras crianças sob a sombra.
Ao lado delas, dois adultos - um deles tossindo violentamente -, estão deitados no chão.

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