Filme sobre maconha medicinal acende debate sobre papel do cinema

Carlos Minuano
Do UOL, em São Paulo

Ilegal (2014)

O projeto nasceu após uma reportagem de Tarso Araújo, jornalista e um dos diretores do documentário. Divulgação
"Só apoio a liberação da maconha se for pra legalizar tudo, uso medicinal e recreativo", afirmou o deputado federal, ex-BBB, reeleito na eleição deste ano, Jean Wyllys. O debate aconteceu na noite desta sexta (31), após exibição do documentário "Ilegal", de Raphael Erichsen e Tarso Araújo em sessão especial da 38ª Mostra Internacional de cinema. O filme, produzido pela revista "Super Interessante", trata do uso medicinal da substância.
O debate foi mediado pelo jornalista Denis Russo, diretor de redação da revista. "A cultura pode ajudar a melhorar a realidade", disse ele ao justificar a aposta no projeto.
O encontro aconteceu no auditório Ibirapuera, em São Paulo, e reuniu além do político e do jornalista, uma das mães protagonista do filme, Margarete Brito, o poeta Sergio Vaz, fundador da Cooperifa, o codiretor Raphael Erichsen, a Fernando Grostein, diretor do filme "Quebrando o Tabu".
O documentário foi inspirado numa edição especial da revista que abordava o avanço da legalização da maconha no mundo. O especial sobre o tema, publicado no início deste ano, acabou encontrando a história de Emmy, garota brasiliense, portadora de um tipo grave de epilepsia. O Canabidiol, extraído da maconha e ilegal no Brasil, trouxe benefícios que nenhum outro medicamento conseguiu, desencadando uma discussão sobre a ilegalidade desse tipo de tratamento.
Onda do bem
"Não passava por minha cabeça que as pessoas poderiam ser tratadas com maconha", declarou a mãe Margareth. "Vi que é uma onda do bem". Para ela, já é tarde para a regulação. "Estamos discutindo o óbvio", disse.
O diretor Grostein destacou as contradições da lei. "Cigarro que é liberado é muito mais nocivo, conheço gente que parou com a heroína, mas não consegue largar o cigarro". Segundo ele, o que determina a proibição não são as questões de saúde, mas interesses comerciais.  
Poeta das quebradas e idealizador do sarau do Capão Redondo (zona sul de São Paulo), Sergio Vaz foi mais ácido sobre entraves burocráticos com a medicação. "Mães vacilaram, deveriam ter trazido a erva de helicóptero", disse. "Brasil é um país ilegal."
Mobilização
O deputado Wyllys elogiou a ousadia do filme. "Cinema tem poder de trazer um novo olhar sobre questões relevantes para a sociedade, mas não teria o mesmo efeito sem a mobilização social das famílias."
O deputado, autor de um projeto que tramita no Senado que pleiteia a legalização, não é otimista. "Não vai ser fácil emplacar essa ideia."
Wyllys reclamou do preconceito. "Eu me sinto na música do Cazuza, já me chamaram de bicha, porque sou mesmo, de ladrão, porque estou na politica, e agora de maconheiro por causa dessa luta", ironiza.
O codiretor do filme, Raphael Erichse, informou que o filme, que estreou em 25 salas, em breve entra em outra fase. "Depois das salas de cinemas vamos levar o debate para diferentes regiões."
Ainda esse ano, segundo ele, o filme será exibido em comunidades carentes do país. O Rio de Janeiro há tem sessão marcada no Cantagalo. Em São Paulo, no sarau do Cooperifa.
Antes da exibição, os convidados foram convidados a fazer uma selfie, em frente do cartaz do filme, com uma placa escrito "ilegal". A ideia do diretor é que todos que apoiem a causa postem fotos no Facebook, no mesmo formato, com a hashtag #ilegalofilme". As imagens serão publicadas no Instagram.