Pela primeira vez no Sesc, Maria
Bethânia pede poesia no ensino público
Tiago Dias
Do UOL, em São Paulo
Do UOL, em São Paulo
Maria Bethânia provou do fanatismo que somou em cinco décadas de carreira no início da temporada do show "Bethânia e as Palavras", no Sesc Pinheiros, em São Paulo, nesta quarta-feira (25). Um dos poucos ícones musicais que ainda não havia se apresentado na rede, ela arrastou filas nas unidades e esgotou os quatro dias de apresentação em 25 minutos. Em um dia caótico de chuva na cidade, o teatro lotou e havia até fila de espera para ingressos remanescentes. Tudo para poder ver Bethânia bem de perto a preço popular de R$ 18 a R$ 60.
Quem esperava um espetáculo nos moldes de "Abraçar e Agradecer", turnê oficial de comemoração dos 50 anos, teve, na verdade, um presente maior: Bethânia em um estado ainda mais puro, envolta com seus poemas favoritos, em um teatro menor, mais intimista que as casas de shows onde costuma se apresentar.
Era Bethânia a declamar, acompanhada de interlúdios musicais precisos do violonista Paulinho Dafilin e do percussionista Carlos Cesa. Vestida de maneira sóbria, com terno branco, sempre descalça e com as habituais pulseiras, manteve-se no canto esquerdo, ao pé de um pedestal com os textos.
A Bethânia cantora --a dançar no centro do palco -- só veio no bis não programado. "Senhores, é um show pequeno, uma leitura. Eu estou aqui nesse teatro, e meu Deus. O que podemos fazer, hein?", questionou os músicos. Escolheu "Reconvexo", do irmão Caetano Veloso, para brindar o público.
Intelectualmente, é um desafio, ela reconhece, declamar poemas em "tempos tão difíceis". Ao relembrar o professor de ginásio Nestor Oliveira, cujo poema "Ciclo" Caetano musicou, ela pediu para que a poesia esteja presente nas salas de aula. "Eu ainda acredito no ensino público", disse. Bethânia emociona, mas seu costumeiro sarcasmo -- ou 'piti', como os fãs costumam chamar nas redes sociais -- sempre está presente. No bis, ela respondeu, séria, a um fã que pedia uma foto: "Por favor, ainda estou no palco".
"Bethânia e as Palavras" é um show em que a cantora expõe suas descobertas no mundo literário. Ainda influenciada pelo espetáculo "Opinião", que a projetou em 1965, suas turnês sempre costuraram canções com poemas. A mistura aqui é o inverso: textos marcantes da carreira são entremeados por trechos de conhecidas canções, como "Marinheiro Só" (domínio público/adaptação Caetano Veloso), "Dança da Solidão" (Paulinho da Viola) e "Olhos de Lince", de Jards Macalé. Em atos, ela desdobra suas descobertas: do mundo, do amor, do Brasilprofundo.
Assim, a leitura do trecho de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, em que Riobaldo admite sua paixão por Diadorim, é acompanhada do sucesso "Meu Primeiro Amor". Ao recitar "Navio Negreiro", de Castro Alves, cantou "Zumbi", de Jorge Ben. Dentro do contexto paulista, com a crise hídrica, ela exalta o sertão com o poema "Águas e Mágoas do Rio São Francisco", de Carlos Drummond de Andrade. "Está secando o velho Chico. Está mirrando, está morrendo", ela declama, salientando que o texto é de 1977. Poderia ser de hoje.
Já a poesia portuguesa encontra eco nos poemas de Sofia de Melo Breyner Andresen e, principalmente, Fernando Pessoa -- seu poeta favorito, a propósito, ganha um ato só seu. "Poema do Menino Jesus", do heterônimo Alberto Caeiro, é seguido por "Cálix Bento" e "Romaria", acompanhada por palmas.
O projeto começou em Minas, em 2009, quando Bethânia foi convidada pela UFMG para participar do ciclo de conferências "Sentimentos do Mundo". O próximo passo seria um blog de poesia, mas o site foi engavetado após o pedido de R$ 1 mi na Lei Rouanet em 2011 gerar polêmica. O show deve ganhar DVD ainda este ano.
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