Do que falamos quando falamos de Raymond
HELIO GUROVITZ
Em Birdman, filme que ganhou o Oscar, um ator decadente, vivido por Michael Keaton, tenta montar uma peça baseada num conto do escritor americano Raymond Carver, “What we talk about when we talk about love” (“Do que falamos quando falamos de amor”). Dois casais em torno de uma mesa, garrafas de bebida, um pôr do sol de sábado no Novo México, histórias de encontros, paixões, doenças, brigas, perdas, sofrimento e separação. É o mais conhecido de uma coletânea com 16 outros contos, publicada em dois momentos, com mais de duas décadas de distância, de duas formas distintas. A história da publicação desses contos (reunidos no Brasil em Iniciantes) e as histórias narradas nos próprios contos mostram por que Carver se tornou um escritor essencial para o nosso tempo.
Da primeira vez, “Do que falamos quando falamos de amor” saiu num volume com o mesmo título em 1981. Carver era uma celebridade recente no mundo das letras. Sua vida fora uma mistura de alcoolismo, casamentos fracassados, filhos afastados, empregos irregulares e insegurança literária. Ele estava sóbrio havia alguns anos, com a mesma mulher – a poeta Tess Gallagher – e conseguia finalmente manter uma produção regular, publicada em revistas americanas. Suas histórias falavam de casais em crise, divórcio, adultério, amizades desfeitas, violência e morte. Ninguém nos contos se faz de vítima, ninguém é coitadinho, nem quer – como quase todo vencedor do Oscar deste ano – reparação por alguma injustiça histórica. Ninguém está lá para defender os direitos das mulheres, dos pobres, dos deficientes, dos negros, dos índios, dos imigrantes latinos, dos palestinos ou dos judeus. Embora vários personagens de Carver possam ser enquadrados nessas categorias, eles estão lá apenas como representantes da categoria maior, os seres humanos. São gente comum, com problemas comuns, que poderiam afetar qualquer um de nós.
Da primeira vez, “Do que falamos quando falamos de amor” saiu num volume com o mesmo título em 1981. Carver era uma celebridade recente no mundo das letras. Sua vida fora uma mistura de alcoolismo, casamentos fracassados, filhos afastados, empregos irregulares e insegurança literária. Ele estava sóbrio havia alguns anos, com a mesma mulher – a poeta Tess Gallagher – e conseguia finalmente manter uma produção regular, publicada em revistas americanas. Suas histórias falavam de casais em crise, divórcio, adultério, amizades desfeitas, violência e morte. Ninguém nos contos se faz de vítima, ninguém é coitadinho, nem quer – como quase todo vencedor do Oscar deste ano – reparação por alguma injustiça histórica. Ninguém está lá para defender os direitos das mulheres, dos pobres, dos deficientes, dos negros, dos índios, dos imigrantes latinos, dos palestinos ou dos judeus. Embora vários personagens de Carver possam ser enquadrados nessas categorias, eles estão lá apenas como representantes da categoria maior, os seres humanos. São gente comum, com problemas comuns, que poderiam afetar qualquer um de nós.
Carver ficou conhecido pelo estilo enxuto, muitas vezes brusco, de seu texto. A força da narrativa estava não apenas no que estava explícito nas palavras, mas sobretudo no que ele omitia – e o leitor imaginava. A crítica decidiu batizar esse estilo de “minimalismo” e fez de Carver, ao longo dos anos 1980, uma espécie de herói de um novo gênero literário. Ele se tornou ainda mais popular nos anos 1990 com o filme Shortcuts, de Robert Altman, cujo roteiro entrelaça alguns de seus contos. Como no filme, eles transmitem a sensação de uma realidade entrecortada, em que tudo acontece rapidamente, simultaneamente – e ninguém consegue dar conta da vida direito.
Carver conseguira parar de beber, mas nunca fora capaz de largar o cigarro. Morreu em 1988, aos 50 anos, de câncer do pulmão, antes do sucesso hollywoodiano. Dez anos depois de sua morte, Tess revelou uma surpresa à revista do jornal New York Times: os contos de Carver haviam sido violentamente cortados por Gordon Lish, seu editor e, antes disso, amigo íntimo e responsável por sua revelação literária. Tess divulgou os manuscritos originais, algum tempo depois as cartas trocadas entre Lish e Carver. Tensas, elas mostram como Carver sofreu para aceitar a mutilação de seus textos, mais de 70% em alguns casos. Lish era um personagem controverso e poderoso entre as editoras americanas. Mercurial, tinha uma visão singular sobre a escrita, que procurava disseminar em oficinas literárias, cujas alunas costumava seduzir. A descoberta dos originais levantou a questão: quem era o pai do “minimalismo”, Lish ou Carver? Para respondê-la, os acadêmicos começaram a trabalhar na reedição dos contos cedidos por Tess, de acordo com a vontade original do autor. A coletânea de 17 contos voltou a ser publicada só em 2008, sob o título original, do livro e do conto: Iniciantes. É um texto com o dobro do tamanho, maior riqueza de detalhes nas histórias e um clima ainda mais intenso – apesar do título inferior.
Mesmo edições com cortes radicais são capazes de melhorar um texto. A mais célebre foi aplicada por Ezra Pound ao poema “The waste land”, de T.S. Eliot – e contribuiu para tornar Eliot o maior poeta do século XX. Ao reduzir o tamanho, tirar a gordura sentimental e ampliar o impacto das palavras, Pound foi um precursor da máxima minimalista: “Menos é mais”. Mas ninguém hoje tem dúvida de que os cortes de Lish pioraram o texto de Carver. Nosso mundo minimalista pulsa ao sabor de tuítes com menos de 140 caracteres, vangloria a rapidez, a impaciência, a dislexia e a capacidade de realizar milhares de atividades simultâneas – sem manter o foco em nenhuma. Pois Carver, o maior de todos os minimalistas, está aí para provar que nem todo corte vem para o bem. Quando a versão integral de “Iniciantes” foi publicada pela primeira vez na revista The New Yorker, uma fã, chocada com a diferença, escreveu uma carta constatando o óbvio: “Menos”, quase sempre, é apenas isso; “menos é menos”.
Mesmo edições com cortes radicais são capazes de melhorar um texto. A mais célebre foi aplicada por Ezra Pound ao poema “The waste land”, de T.S. Eliot – e contribuiu para tornar Eliot o maior poeta do século XX. Ao reduzir o tamanho, tirar a gordura sentimental e ampliar o impacto das palavras, Pound foi um precursor da máxima minimalista: “Menos é mais”. Mas ninguém hoje tem dúvida de que os cortes de Lish pioraram o texto de Carver. Nosso mundo minimalista pulsa ao sabor de tuítes com menos de 140 caracteres, vangloria a rapidez, a impaciência, a dislexia e a capacidade de realizar milhares de atividades simultâneas – sem manter o foco em nenhuma. Pois Carver, o maior de todos os minimalistas, está aí para provar que nem todo corte vem para o bem. Quando a versão integral de “Iniciantes” foi publicada pela primeira vez na revista The New Yorker, uma fã, chocada com a diferença, escreveu uma carta constatando o óbvio: “Menos”, quase sempre, é apenas isso; “menos é menos”.
Helio Gurovitz é jornalista (hgurovitz@edglobo.com.br)
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