Laetitia Casta não gosta de Photoshop e critica padrão de beleza que deixa mulheres iguais
Para a atriz e modelo, “a beleza e a feminilidade estão indo embora”
MELINA DALBONI
No filme da campanha, ao encontrar o ator espanhol Quim Gutiérrez no elevador, ela se imagina numa tórrida manhã de sexo. Tudo para traduzir a fragrância L’Extase, que chega ao Brasil em maio, criada para “uma mulher banhada em erotismo”, cujo slogan é “Libere suas fantasias”. O homem, aliás, é o objeto (acaba de ser lançada uma campanha brasileira no mesmo clima. Dê uma espiadinha no Front).
— Sou muito tímida. Fico encabulada com todo mundo me olhando, quero logo que tudo acabe rapidamente. Mas quando estou em frente a uma câmera não sou a mesma pessoa. No caso da campanha, pude colaborar na criação da personagem: sensual, erótica, mas nada vulgar — diz a modelo, enquanto, pedindo desculpas, interrompe a conversa para assoar o nariz.
Simone de Beauvoir é inspiração
Laetitia foi descoberta pelo mercado da moda aos 15 anos, numa temporada de férias com a família na terra natal de seu pai, Córsega. Rapidamente, virou garota-propaganda da Guess, embaixadora da L’Orèal e uma das angels da Victoria’s Secret. Na época, ouviu ordens disfarçadas de conselhos para que emagrecesse e consertasse os dentes desalinhados. Só não pediram que crescesse. Ela tem 1,69m, uma baixinha para o padrão das modelos. Aos 36 anos, Laetitia parece perfeita, mas não se considera um ícone. Não quis aparelho nos dentes ou exagerar nas dietas porque acredita que os pequenos detalhes reforçam a individualidade e a autoconfiança.
— Não acredito que perfeição seja sinônimo de beleza — desabafa Laetitia. — Já me pediram para consertar os dentes, mas para mim não ser perfeito é aceitar quem você é como indivíduo. Ver as mulheres todas iguais é assustador, especialmente agora, com a internet. Elas não querem mais ser uma mulher, mas sim uma imagem, uma boneca. A feminilidade e a beleza estão indo embora.
Numa espécie de bloco do eu sozinho, ela insiste com os fotógrafos com quem trabalha para que não extrapolem no uso do Photoshop. Por isso, é possível ver dobras no cotovelo, pintas no corpo e no rosto, veias nos pés e pelos nas pernas nas fotos nuas que fez para a edição de dezembro da revista masculina francesa “Lui”. O ensaio é assinado pelo italiano Mario Sorrenti. O único pedido de Laetitia foi que as imagens também agradassem o público feminino.
— Me interessa posar para os homens e para as mulheres. A mensagem é importante, porque o mundo precisa de beleza e emoção, mas também quero falar sobre feminilidade — explica a atriz. — Eu realmente amo as mulheres e sempre fui muito próxima delas, talvez devido à minha infância, quando vi que minha mãe e minha avó tinham grande dificuldade de se expressar e de serem criativas, porque o mundo era muito machista. Elas tinham que se sacrificar pela família. Aquilo me entristecia quando eu era pequena. Foi o que me fez ser engajada.
A atriz leu o livro “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, aos 30 anos. Ficou tão tocada pelo discurso da pensadora francesa que encomendou a uma amiga artista plástica uma escultura, em forma de pulmão, feita com páginas do livro. A peça está em sua casa até hoje.
— Nós, mulheres, lutamos para ser independentes e ter carreira, mas a sociedade não está adaptada para isso. Não nos dão oportunidades. Como se o mundo tivesse dito: “Ok, vocês querem ser iguais aos homens, podem ser”. Mas não queremos ser homens. É preciso repensar o modelo. Agora, você tem que fazer tudo: ser mãe, profissional, perfeita. E isso não está certo.
Mãe de três filhos (duas meninas, de 13 e 5 anos, e um menino de 8), ela diz que crescer como mulher, ser criativa, ser capaz de mudar e de se questionar são pontos mais importantes do que ser considerada um ícone de beleza.
E aceitar que está ficando mais velha?
— Who cares?
em http://ela.oglobo.globo.com
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