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2 de maio de 2015

VIDA

Documentário conta a vida desregrada de Carlos Imperial

Carlos Imperial tinha o dom de farejar talentos, mas ficou marcado pelo tipo desregrado e polêmico que representou ao longo da vida

SÉRGIO GARCIA
GAIATICE O personagem faz pose sexy. Ele namorou muitas mulheres, às vezes ao mesmo tempo, e foi pivô de várias controvérsias  (Foto: acervo Denilson Monteiro)
GAIATICE O personagem faz pose sexy. Ele namorou muitas mulheres, às vezes ao mesmo tempo, e foi pivô de várias controvérsias  (Foto: acervo Denilson Monteiro)
A cena inicial de Eu sou Carlos Imperial, documentário lançado recentemente no festival É Tudo Verdade, funciona como um cartão de visita do personagem. Mostra uma sequência da chanchadaBanana mecânica (1974), em que o doutor Ferrão é perseguido por uma legião de mulheres fogosas na praia. O filme, paródia deLaranja mecânica, produção de Stanley Kubrick que havia sido proibida no Brasil, tinha três das características que marcaram a carreira de Imperial: irreverência, oportunismo e impacto. Sutileza não era o forte de Imperial (1935-1992), um sujeito corpulento (pesava mais de 100 quilos), centralizador e polemista que tinha como principal virtude – além de criar polêmicas – a aptidão para farejar talentos artísticos e apontar tendências que tempos depois varreriam o showbiz. Como o personagem de Robert Louis Stevenson, Imperial tinha, assim, seu lado médico e seu lado monstro. Um Imperial criava polêmicas de mau gosto e cultivava fama de devasso. O outro era uma antena que captava tendências do mundo artístico e identificava promessas.
Entre as décadas de 1960 e 1980, a sombra rechonchuda de Imperial se projetou por várias áreas. Ele foi produtor, compositor, ator, diretor, roteirista e colunista, com atuação na TV, cinema, teatro e impressos. Foi decisivo para catapultar a carreira de Roberto Carlos, Wilson Simonal, Elis Regina, Tim Maia e Erasmo Carlos. Apesar de todos esses itens no currículo, talvez sua marca para a posteridade tenha sido a maneira despudorada com que levou a vida. “Ele colecionava histórias impagáveis”, diz Denilson Monteiro, autor deDez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial, biografia que acaba de ser reeditada. Denilson é corroteirista do documentário, ao lado deRenato Terra e Ricardo Calil, dupla que acumula também a direção.

Normalmente arredio a aparições, Roberto Carlos dá um depoimento generoso sobre Imperial. Na segunda metade dos anos 1950, o cantor tentava dar os primeiros passos na carreira. Foi Imperial quem de certa forma o adotou – tanto que o Rei o chamava de “pai”.Primeiro, deu oportunidade a Roberto de se exibir no Clube do rock, programa de TV apresentado por Imperial. Seguro de que estava diante de uma pepita rara, ele usou sua influência para abrir a porta das gravadoras àquele que se tornaria o artista mais popular do país. Foi graças ao contato de Imperial que Roberto gravou seu primeiro compacto simples, com duas faixas compostas pelo “tutor”. Na verdade, ambos lucravam. “O Imperial queria pegar um cantor que gravasse suas músicas”, conta Paulo Cesar de Araújo, autor da biografia Roberto Carlos em detalhes.
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Sim, ele foi também compositor. E de muito sucesso. Nos anos 1960, escreveu várias canções amplamente conhecidas: “Vem quente que estou fervendo”, “A praça”, “Nem vem que não tem” e “Mamãe passou açúcar em mim”, estes dois últimos sucessos na voz deSimonal. Na maior cara de pau, Imperial às vezes omitia o nome do parceiro no registro da obra. Também botava seu jamegão em músicas que eram de domínio público, como foi o caso de “Meu limão, meu limoeiro”, outro arrasaquarteirão de Simonal.

Imperial exercia sua criatividade para o bem e o mal. Ele era um emérito empacotador de conceitos e ideias. Figura midiática, chegou a abraçar a política. Ao se candidatar a vereador, em 1982, fez uma campanha hilariante, baseada no bordão “Vai dar zebra”. Estava sempre acompanhado das “lebres”, como eram chamadas suaschacretes. Obteve mais de 40 mil votos e se elegeu com facilidade. 
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O documentário esclarece um dos episódios dos mais tenebrosos que envolveram o personagem. Na primeira metade da década de 1970, Imperial adaptou para o cinema a peça Greta Garbo, quem diria, acabou no IrajáComo protagonista, escolheu um jovem candidato a galã, Mário Gomes. Pouco depois, com o estouro do ator na novelaDuas vidasdecidiu lançar o filme, com algumas alterações. Pegando carona na androginia, fenômeno em voga no mundo dos espetáculos, trocou o nome para O sexo das bonecas. Para divulgar a atração, mandou confeccionar cartazes em que Mário Gomes aparecia afeminado. Naturalmente, o astro ficou bravo e conseguiu que a Justiça proibisse a exposição da imagem. Como vingança, Imperial plantou num jornal uma nota segundo a qual o ator teria dado entrada num hospital, depois de sofrer um acidente com uma cenoura. Foi o bastante para o boato se espalhar pelo país – imagine isso numa era pré-internet – e pôr em risco o futuro do galã.
 
MEMÓRIAS 1. Ao violão, com Roberto Carlos (à esq.), Erasmo (ao fundo) e Cauby Peixoto (à dir.), em foto de 1958 (Foto: acervo Denilson Monteiro  e acervo Aloísio T. de Carvalho)
2 Carregando uma cruz, numa de suas performances midiáticas  quando vereador (Foto: acervo Denilson Monteiro  e acervo Aloísio T. de Carvalho)
4 No cinema, sempre cercado por elas   (Foto: acervo Denilson Monteiro  e acervo Aloísio T. de Carvalho)
 Com a segunda mulher, a modelo Andréa Carla, e o cachorro, em 1990: histórias impagáveis e a ficha no Dops (dir.) (Foto: acervo Denilson Monteiro  e acervo Aloísio T. de Carvalho)
Protagonista e contador de histórias, Imperial usava sua inventividade para floreá-las. Num trecho do documentário, narra emocionado sua prisão durante a ditadura militar, lembrando o episódio em que mandou um cartão de Natal aos oficiais no qual aparece sentado no vaso sanitário. Ele exibe uma cicatriz no joelho e diz que foi um tiro que levou no cativeiro. Tudo mentira. “Aquilo, na verdade, foi uma operação de varizes”, diz o biógrafo Denilson Monteiro, às gargalhadas. Se há um pecado no documentário, que deverá entrar em circuito comercial no meio do ano, é a omissão do episódio em que Imperial foi acusado de corrupção de menores e se escondeu numa fazenda.

Nos anos 1980, Imperial criou o tipo devasso e mulherengo que o marcaria. Foi o período em que se dedicou às produções no teatro – peças sérias, diga-se – e depois no cinema, à frente de comédias eróticas de mau gosto, em que encarnava um tipo depravado. Eu sou Carlos Imperial dá voz também a seus dois filhos, Maria Luiza e Marco Antônio – ela, mais distante; ele, afetuoso, o chama de “papai”. Fica o exercício para a imaginação: como Imperial agiria nestes tão patrulhados dias de hoje, se não tivesse morrido aos 57 anos, vítima de uma doença neuromuscular? Provavelmente, continuaria escandalizando. “Ele seria interessante para dar uma paulada nesse pessoal que está fazendo um retrocesso nos costumes”, afirma Monteiro. Disposição para a polêmica – mesmo que rasa, pesada e às vezes de mau gosto – não faltaria.  

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