Flip tem 'briga de velhinhos' e sobra para Bossa Nova e Tom Jobim
José Ramos Tinhorão e Hermínio Bello discordaram com ironia e acidez.
Com 'provocações', debate deste domingo foi bem humorado e respeitoso.
Foi mesa pra cardíaco: teve troca de provocações, divergências, polêmica musical e risinhos irônicos. Mas tudo na maior civilidade e com humor (nem sempre voluntário) – a plateia aplaudiu bastante e gargalhou. De um lado, o pesquisador José Ramos Tinhorão, 87, que acha Tom Jobim um coitado, que “a bossa nova tem ritmo de goteira e é puro jazz pasteurizado” e que a música popular brasileira sempre fracassou no exterior. Do outro, o compositor, escritor e poeta Hermínio Bello de Carvalho, 80, que acha Jobim “um grande compositor” e que a MPB deu certo e tem respeito lá fora, sim.
Na mesa que abriu a programação deste domingo (5) na 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Tinhorão reclamava que o sistema de som do local do debate era péssimo, disse que não estava escutando nada e teve aceitar quando lhe foram oferecidos fones de ouvido. Debochou ao (finalmente) ouvir que o nome do aparelho era “headset”, assim, em inglês. Hermínio, que estava com uma bengala, mostrou dificuldades para se acomodar: “Tá difícil esta cadeira aqui”. Mais risos.
Tinhorão é, assumidamente, uma espécie de representante da “melhor idade enxaqueca” da música brasileira. Conhece o assunto a fundo, publica livros, mas sua preferência é pela tradição. E faz muito tempo que desdenha da bossa nova. Na Flip, criticou, inclusive, o visual americanizado da juventude de Copacabana, berço do estilo nos anos 1950. “Usavam camisetas com frases em inglês, mocassim sem meia e uns óculos escuros chamados Ray Ban, com estojinho aqui no cinto. Eu achava isso de uma falsidade...”
É de se pensar na reação que Tinhorão terá ao descobrir que Flip é sigla para Festa Literária INTERNACIONAL de Paraty.
O pesquisador Arriscou ainda uma comparação estética não exatamente musical: “Esses bossanovistas estão tudo caindo aos pedaços, e eu, que sou mais velho, estou mais inteiro do que eles”. No que dizia respeito à arte propriamente dita, resumiu: “A única novidade da bossa nova é a batida de violão do João Gilberto”.
E logo voltou à carga contra Jobim. “Eu tenho uma pena, porque como pessoa era excelente, mas tinha um equívoco fundamental: achava que compunha música brasileira (risos)”, ironizou. Hermínio, o oponente, devolveu dizendo que Frank Sinatra “gravou Tom Jobim com reverência”.
“Acho que o Tinhorão borra a figura do Tom com tintas tão negras e tão sangrentas – o que é até bom, porque dá Flamengo. É injusto. Não digo isso por mim. Tom era reverenciado por um parceiro meu muito querido, chamado Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha.”
Tinhorão não se comoveu e tirou sarro: “Oh!”.
A teoria de Tinhorão diz, basicamente, o seguinte: países ricos divulgam apenas a própria música porque são eles que produzem a tecnologia e fabricam aparelhos capazes de difundir essa música. E não ligariam para o que vem de fora. Ele crê que vale o mesmo para outras áreas, nas quais o Brasil tem atuação discreta. “Por exemplo, não existe uma indústria farmacêutica brasileira, com patente brasileira. Biotônico Fontoura é a única coisa brasileira que conheço em termos de remédio.”
Mário de Andrade e sexo com as árvores
A discordância sobre a bossa nova acabou ofuscando um momento, no início da mesa, em que Hermínio ganhou aplausos, ao abordar a sexualidade de Mário. Na Flip 2015, a homossexualidade do homenageado da edição tem sido uma constante na Tenda dos Autores.
A discordância sobre a bossa nova acabou ofuscando um momento, no início da mesa, em que Hermínio ganhou aplausos, ao abordar a sexualidade de Mário. Na Flip 2015, a homossexualidade do homenageado da edição tem sido uma constante na Tenda dos Autores.
“Diziam que o Mário fazia sexo com as árvores, que era inclusive meio pan. Ele sentia fazendo sexo ao abraçar uma árvore, este é um detalhe interessante”, começou o convidado, que já escreveu livro sobre o autor de “Macunaíma”. Na sequência, falou da carta recentemente divulgada, na qual o autor tocava no assunto “minha tão falada (pelos outros) homossexualidade”.
“Fizeram tanto escândalo sobre esta carta, e esta carta não diz nada. Pelo contrário, coloca mais dúvida sobre isso. É um sensacionalismo à toa”, opinou Hermínio.
“Na verdade, Mário era sabidamente confuso sexualmente. Quando ele aborda o assunto, tem sempre, sempre, sempre uma carga de dor. Ele tinha uma expressão muito bonita, era quase uma maldição. Mário não via como uma coisa boa, era uma coisa que o fazia sofrer. Se isso não for aprofundado muito, fica uma coisa banal, rasteira.”
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