Ao Vivo

2 de setembro de 2014

De volta ao mundo vitoriano

Um evento em São Paulo reúne nostálgicos do século XIX para celebrar a moda e os costumes da época da Revolução Industrial

JÚLIA KORTE (TEXTO) E ROGÉRIO CASSIMIRO (FOTOS)
CHEIOS DE POMPA Grupo Piquenique Vitoriano reunido no Parque do Ibirapuera, em  São Paulo. Os participantes levam meses para montar seus trajes (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
O Parque do Ibirapuera, em São Paulo, recebeu, no último domingo de julho, um piquenique que parecia ter saído de um quadro do século XIX. Os rapazes estavam vestidos de cartola, relógios de bolso e cachimbos. As moças chegaram com cestos de flores. Suas saias eram longas, e os chapéus tinham abas largas. Nas toalhas bordadas estendidas no chão, taças de vinho, xícaras de chá e tortas doces. Um jovem circulava entre os presentes com uma bicicleta tipicamente vitoriana. Atraía olhares curiosos. “É a gravação de uma novela?”, perguntou uma senhora que passeava. A produção  visual era digna de cenografia de cinema ou televisão. Tratava-se da quarta edição do Piquenique Vitoriano de São Paulo. O evento é organizado por fãs da vestimenta e da cultura da época vitoriana (1837-1914), que marcou o auge da monarquia britânica e de sua influência mundial. Os participantes se vestem a caráter e agem como se tivessem entrado numa máquina do tempo.
O primeiro evento vitoriano ocorreu em Curitiba, no Paraná, em 2009. Grupos de Florianópolis, Belo Horizonte e Porto Alegre também fazem encontros semelhantes de forma esporádica. Os de São Paulo e Curitiba são mais organizados e frequentes. Os participantes têm em comum o amor pela história dos séculos XVIII e XIX. O escritor e professor Rummel Werneck, que fundou o grupo paulista, dá aulas de história e ensina a criar indumentárias da época. O sucesso do piquenique levou os organizadores a criar outras edições, como o Chá das Cinco e o Salão Mercantilista, em que há troca de roupas e acessórios. O piquenique de inverno, considerado o grande evento anual do grupo, conta com mais de 100 participantes. Uma das inspirações deles é o trabalho da fotógrafa sueca Viona Ielegems, que vive na Alemanha. Ela anda pelas ruas vestida com trajes do século XIX, promove encenações e bailes e faz fotos artísticas que invocam o período.

Para ser um vitoriano moderno, é obrigatório seguir os códigos de vestimenta e de etiqueta do período. A ideia dos participantes é resgatar, além da moda, valores como cordialidade e respeito. “Revisitamos o passado com glamour, elegância e educação”, diz Guilherme Mello, de 29 anos. Ele usa cartola, cravat (um lenço amarrado ao redor do pescoço) e pedala a bicicleta vitoriana que ele mesmo desenhou e mandou fazer. Há na internet blogs que ensinam a se vestir e a se comportar nos encontros. É necessário observar a postura, o vocabulário e outros códigos envolvidos em encontros sociais.

Para montar com fidelidade o figurino de época, os participantes garimpam peças em brechós e lojas especializadas. Leva meses para compor um visual completo, da vestimenta básica a acessórios como  sombrinhas e bengalas. Muitos se aventuram a fazer manualmente seus trajes. A ilustradora Mara Sob, de 35 anos, participa pelo segundo ano dos encontros. Ela encontrou um tecido decorado com uma iluminura renascentista de 1304. Resolveu transformá-lo numa bolsa. Depois de pesquisar referências, levou duas semanas na execução da peça. Um capricho festejado pelos colegas.
Mateus Oliveira 16 anos  A roupa é um uniforme militar escocês da era napoleônica, que marcou a volta dos kilts, as saias com estampas xadrez usadas por homens (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Amanda Silva e Davi Izidoro 20 anos O casal eduardiano usa roupas com referências de 1906. O vestido de veludo foi feito à mão por Amanda. Izidoro, músico erudito, encontrou sua roupa em brechós (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
guilherme mello 29 anos  O traje vitoriano de 1880 é formal: cartola, cravat (gravata) e  relógio de bolso.  A bicicleta  foi feita sob encomenda  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
samara pinheiro e rafael soares 20 e 26 anos  O casal eduardiano montou os trajes garimpando peças em brechós. Ela representa a alta classe, enquanto Rafael inspirou-se na capa original do livro de Sherlock Holmes   (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
gabriel  noya  14 anos  Em seu segundo evento, Gabriel  se inspirou no músico Beethoven. A bengala é típica da época e foi um presente de seu pai. Os trajes foram  comprados em brechós (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

anna barone e ingra tribarni 18 anos  A dupla eduardiana foi criativa. Anna inspirou-se na alta classe do Titanic, que naufragou em 1912. Sua amiga está de sufragista, em campanha pelo voto feminino (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)


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