De volta ao mundo vitoriano
Um evento em São Paulo reúne nostálgicos do século XIX para celebrar a moda e os costumes da época da Revolução Industrial
JÚLIA KORTE (TEXTO) E ROGÉRIO CASSIMIRO (FOTOS)
O Parque do Ibirapuera, em São Paulo, recebeu, no último domingo de
julho, um piquenique que parecia ter saído de um quadro do século XIX.
Os rapazes estavam vestidos de cartola, relógios de bolso e cachimbos.
As moças chegaram com cestos de flores. Suas saias eram longas, e os
chapéus tinham abas largas. Nas toalhas bordadas estendidas no chão,
taças de vinho, xícaras de chá e tortas doces. Um jovem circulava entre
os presentes com uma bicicleta tipicamente vitoriana. Atraía olhares
curiosos. “É a gravação de uma novela?”, perguntou uma senhora que
passeava. A produção visual era digna de cenografia de cinema ou
televisão. Tratava-se da quarta edição do Piquenique Vitoriano de São
Paulo. O evento é organizado por fãs da vestimenta e da cultura da época
vitoriana (1837-1914), que marcou o auge da monarquia britânica e de
sua influência mundial. Os participantes se vestem a caráter e agem como
se tivessem entrado numa máquina do tempo.
O primeiro evento vitoriano ocorreu em Curitiba, no Paraná, em 2009.
Grupos de Florianópolis, Belo Horizonte e Porto Alegre também fazem
encontros semelhantes de forma esporádica. Os de São Paulo e Curitiba
são mais organizados e frequentes. Os participantes têm em comum o amor
pela história dos séculos XVIII e XIX. O escritor e professor Rummel
Werneck, que fundou o grupo paulista, dá aulas de história e ensina a
criar indumentárias da época. O sucesso do piquenique levou os
organizadores a criar outras edições, como o Chá das Cinco e o Salão
Mercantilista, em que há troca de roupas e acessórios. O piquenique de
inverno, considerado o grande evento anual do grupo, conta com mais de
100 participantes. Uma das inspirações deles é o trabalho da fotógrafa
sueca Viona Ielegems, que vive na Alemanha. Ela anda pelas ruas vestida
com trajes do século XIX, promove encenações e bailes e faz fotos
artísticas que invocam o período.Para ser um vitoriano moderno, é obrigatório seguir os códigos de vestimenta e de etiqueta do período. A ideia dos participantes é resgatar, além da moda, valores como cordialidade e respeito. “Revisitamos o passado com glamour, elegância e educação”, diz Guilherme Mello, de 29 anos. Ele usa cartola, cravat (um lenço amarrado ao redor do pescoço) e pedala a bicicleta vitoriana que ele mesmo desenhou e mandou fazer. Há na internet blogs que ensinam a se vestir e a se comportar nos encontros. É necessário observar a postura, o vocabulário e outros códigos envolvidos em encontros sociais.
Para montar com fidelidade o figurino de época, os participantes garimpam peças em brechós e lojas especializadas. Leva meses para compor um visual completo, da vestimenta básica a acessórios como sombrinhas e bengalas. Muitos se aventuram a fazer manualmente seus trajes. A ilustradora Mara Sob, de 35 anos, participa pelo segundo ano dos encontros. Ela encontrou um tecido decorado com uma iluminura renascentista de 1304. Resolveu transformá-lo numa bolsa. Depois de pesquisar referências, levou duas semanas na execução da peça. Um capricho festejado pelos colegas.
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