O quanto a crise da água afetará a alface na sua mesa
Medidas para restringir o uso de água na agricultura afetarão qualidade e preço de culturas mais frágeis, como as hortaliças, em São Paulo
RENATO MACHADO
A mesa do paulistano deverá ficar menos verde nos próximos meses, afirmam especialistas. A crise hídrica e o consequente racionamento já afetam a vida dos moradores. Porém, a possibilidade de uma redução da irrigação em plantações no interior paulista deve encarecer algumas culturas mais sensíveis, como as hortaliças.
Na semana passada, em reportagem do Valor Econômico, o secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Arnaldo Jardim, afirmou que o governo estadual estuda maneiras de restringir o uso de água no campo. "Estamos buscando uma alternativa que resulte em um impacto mais ameno possível à agricultura", afirmou Jardim.
Apesar de detalhes da restrição da irrigação ainda não terem sido divulgados, especialistas não têm dúvidas de que culturas mais sensíveis serão as primeiras afetadas. Glauco Kimura, coordenador do programa Água para a Vida do WWF Brasil, afirma que "a falta de irrigação adequada pode gerar quebras na produtividade, redução no tamanho e qualidade das frutas e hortaliças".
Períodos chuvosos e com calor extremo, como deveria ser o verão, naturalmente afetam esse tipo de plantação. Há diminuição na produção e queda de qualidade do produto. Neste ano, porém, as temperaturas ainda mais altas e as chuvas escassas provocam uma redução maior da oferta e da qualidade das hortaliças em São Paulo. Segundo o economista da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) Flávio Godas, com a rigidez do atual cenário, diminuições já são notadas. "O Alto Tietê diminuiu um pouco. São 10% de queda que está acima do normal", afirma.
Aumento do preço
A dificuldade ao produzir neste cenário alimentos delicados, como as folhas, poderá desestimular agricultores de menor porte, de acordo com o agrônomo Carlos Eduardo Palma, da Cooperativa Agrícola Mista de Itu. "O pessoal de agricultura familiar, que produz em áreas pequenas, vai simplesmente parar, não vai ter como", afirma. "Se eles fizerem algum contigenciamento de fornecimento de águas pra quem produz, a produção vai cair e o preço vai subir."
Para Palma, o cenário negativo pode levar até mesmo à falta de abastecimento de mercados mais centrais. "Basicamente folhosas, que são as mais sensíveis, (podem faltar) num primeiro instante. E, num segundo instante, os tubérculos - cenoura, beterraba, nabo. Folhosas vão ser as primeiras a sentir. Na verdade, já estão sentindo, porque você não acha mais mercadoria de padrão bom já há algum tempo. A coisa é séria", diz.
Flávio Godas concorda que possíveis cortes na irrigação levarão ao aumento do preço de alface, rúcula e escarola, por exemplo. No entanto, é cético à falta das folhas em feiras e mercados. "O produto vai ser encontrado. Pode não estar no tamanho, na qualidade desejada, não com o preço adequado. Pra mim, não existe essa possibilidade de desabastecimento", afirma.
Em outros Estados
Godas diz que o fornecimento para a Ceagesp seguirá com produtores de locais mais afastados das áreas afetadas pela seca. "A região Sul do país não teve problema nenhum, pelo contrário. Está chovendo mais do que o normal. O que eu percebo aqui na Ceagesp é que, de fato, já ocorreu esse aumento (de preço), só que é ainda muito cedo pra saber se essa escassez de água vai interferir também", afirma. "Não é possível que todos os Estados vão sofrer com isso. Se no Paraná não tiver problema, o comprador vai buscar lá. O que vai aumentar é o preço, porque o custo é maior, tem mais pedágio, o custo de transportar isso de um lugar mais distante acaba encarecendo o produto", diz.
Para evitar cenários mais caóticos, Kimura diz acreditar que redução do consumo e utilização de água de reúso são as primeiras medidas a serem tomadas. No longo prazo, a saída é "investir em recuperação e conservação de mananciais e zonas produtoras de água, reduzir a dependência do Cantareira, combater fortemente desperdícios e ligações clandestinas na rede e implementar políticas permanentes de consumo consciente", afirma. O especialista em recursos hídricos também afirma que "trazer comida de outros Estados acabará sendo necessário, já que se prevê quebra de safras e haverá proibições no ritmo da irrigação no Estado".
Histórico internacional
Exemplos para sair dessa situação podem ser encontrados fora do Brasil. Na Califórnia, nos Estados Unidos, houve uma crise hídrica de grandes proporções entre 2013 e 2014, impactando a produção de legumes, verduras e nozes. "O problema foi tratado a partir da cobrança da água dos fazendeiros, que também passaram a pagar pelo transporte e pelo investimento público que foi feito na construção dos canais de irrigação, alguns com até 800 km de extensão no Vale Central do Estado", afirma Kamura.
O investimento em tecnologias de irrigação reduziria o problema, porém, com um custo inicial alto ao produtor. "Ferramentas não faltam, o grande problema é cultura. Outro aspecto é de custo. Implantar um sistema de gotejamento, por exemplo, que vai dar uma economia de água no médio prazo, tem um custo inicial maior praquele produtor. Ele não tem como bancar isso", afirma Carlos Eduardo Palma.
A Secretaria de Agricultura de São Paulo ainda não anunciou como serão realizados os cortes, quais regiões ou que produtores serão afetados. Afirma que, juntamente com as autoridades responsáveis, o secretário Arnaldo Jardim trabalha para que as medidas sejam divulgadas em breve.
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