
Relembre a trajetória do cineasta Eduardo Coutinho, morto aos 80 anos
13.nov.2011
- O cineastra brasileiro Eduardo Coutinho posa para ensaio exclusivo da
revista Serafina, na livraria Ponte de Tábuas, em São Paulo
Leia mais Folhapress
O corpo do cineasta Eduardo Coutinho é velado na manhã desta
segunda-feira (3) no Cemitério São João Batista, na zona sul do Rio de
Janeiro. A cerimônia foi aberta às 10h e o enterro está marcado para
acontecer às 16h no mesmo local.
Coutinho foi morto a facadas
no domingo (2) em seu apartamento na capital fluminense. Segundo
o diretor da Divisão de Homicídio do Estado do Rio de Janeiro, Rivaldo
Barbosa de Araújo Júnior, Daniel, filho do diretor, é o autor do crime.
"Não há dúvidas de que Daniel é o culpado", disse o delegado em
entrevista coletiva. "É a expressão genuína da palavra tragédia."
Daniel, de 41 anos, morava com os pais e foi preso em flagrante delito
pela morte de Eduardo Coutinho, 80, e pela tentativa de matar a
mãe, Maria Oliveira Coutinho, que está internada em estado grave. Ele
será indiciado por homicídio doloso, mas, por possuir quadro de
esquizofrenia, um juiz decidirá quais medidas serão tomadas
judicialmente.
Segundo o delegado, o crime aconteceu por volta
das 11h de domingo. O corpo de Coutinho foi encontrado na porta de um
dos quartos do apartamento. A esposa do cineasta, que também foi ferida,
teria tentado se esconder no banheiro e ligar para outro filho para
pedir ajuda. Após cometer os crimes, Daniel também tentou se matar,
conclui o delegado.
O diretor da Divisão de Homicídio disse que
Daniel usou duas facas de cozinha nos ataques e, logo após agredir os
pais, bateu na porta de um de seus vizinhos e disse: "Eu libertei meu
pai, tentei libertar a minha mãe e tentei me libertar". Os bombeiros
foram chamados pelo porteiro do prédio e Daniel não demonstrou
resistência com a chegada deles, abrindo a porta do apartamento, ainda
segundo os policiais.
O filho de Coutinho, que está sob custódia
da polícia, passou por uma cirurgia e ainda prestará depoimento. Maria
Oliveira Coutinho segue internada em estado grave e, em caso de melhora,
deve também falar com os policiais. Ela levou cinco facadas ao todo:
duas nos seios e três no abdômen, e uma delas perfurou o fígado. A
quantidade de perfurações no corpo de Coutinho ainda deve ser revelada
pela perícia.
Foram ouvidas quatro testemunhas até o momento e outros moradores do prédio deverão prestar depoimento ainda nesta semana.

Cinco documentários de Eduardo Coutinho
"CABRA MARCADO PARA MORRER"
O
filme mais famoso de Eduardo Coutinho, sobre a vida e o assassinato de
um líder camponês, começou a ser rodado em 1964, mas foi interrompido
pelo Golpe Militar. O diretor só conseguiu retomar o projeto dezessete
anos depois, procurando e mostrando o que aconteceu com cada um dos
personagens que havia entrevistado, inclusive a viúva do camponês. O
resultado foi uma das maiores obras-primas do cinema brasileiro e um dos
documentários mais importantes da história.
Por Chico Fireman Reprodução
Trajetória
Nascido em 11 de maio de 1933, em São Paulo, Eduardo Coutinho abandonou
o curso de direito por uma carreira no entretenimento. Depois de
estudar direção e montagem na França e voltar ao Brasil em 1960,
Coutinho entrou em contato com o Cinema Novo e o Centro Popular de
Cultura (CPC), da UNE.
No CPC, o cineasta começou a trabalhar no
que seria considerado seu projeto mais importante: uma ficção baseada
no assassinato do líder das Ligas Camponesas, João Pedro Teixeira, com
elenco formado pelos próprios camponeses do Engenho Cananeia, no
interior de Pernambuco. A produção de "Cabra Marcado para Morrer" teve
que ser interrompida depois de duas semanas de filmagens, quando ocorreu
o Golpe Militar de 1964 e parte da equipe foi presa sob acusações de
comunismo.
O filme só seria completado em 1984, depois de
Coutinho reencontrar negativos que haviam sido escondidos por um membro
da equipe, e resolveu retomar o projeto como um documentário sobre o
filme que não foi realizado e sobre os personagens reais que seriam os
atores do primeiro projeto.

2.fev.2014 - Philip Seymour Hoffman, ator americano, aos 46 anos Divulgação / Paris Filmes
Entre 1966 e 1975, atuou principalmente como roteirista de produções
como "A Falecida" (1965), "Garota de Ipanema" (1967) e "Dona Flor e Seus
Dois Maridos" (1976). Em 1975, Coutinho passou a integrar a equipe do
"Globo Repórter", onde permaneceu até 1984.
Depois de "Cabra",
Coutinho se firmou como o principal documentarista do país, com filmes
que privilegiavam pessoas comuns e as histórias que elas têm para
contar, como "Santo Forte" (1999), "Edifício Master" (2002), "Peões"
(2004) e "Jogo de Cena" (2007). Seu último longa foi "As Canções", de
2011.
Em 2013, ao completar 80 anos, Coutinho ganhou homenagem
na Festa Literária Internacional de Parati e na Mostra Internacional de
Cinema de São Paulo, que organizou uma retrospectiva completa de seus
filmes e um
livro reunindo textos de e sobre o cineasta.
Na ocasião,
Coutinho afirmou ao UOL que o público foge de documentários.
"Isso é trágico. Tem uma diferença entre ficção e documentário, e é
apenas para a Ancine [Agência Nacional do Cinema]. Documentário é uma
palavra maldita. Se o público cheirar documentário, ele foge. Só não
foge quem não pode", afirmou.