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16 de fevereiro de 2015

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Correr para que mesmo? Por Claudia Penteado

Na 'Visita' de hoje, Claudia volta a correr, mas apenas por prazer, sem meta. Só para que o tempo não passe voando por ela


Respeito todos os maratonistas e os que correm por prazer, mas há muita corrida sem sentido em nossa vida (Foto: Silena Lambertini)


Correr: deslocar-se ou mover-se rapidamente; andar com velocidade; Ir às pressas.
Assim é o verbo 'correr' em estado bruto, como verbete de dicionário.
Noutro dia decidi voltar a correr. Depois de umas duas idas à praia do Leblon para acompanhar minha filha às aulas de vôlei, decidi levar o tênis. Tudo o que eu tinha era uma hora para usar. Olhei para a frente, e simplesmente me pus a correr.
Foi tão simples que me despertou uma estranha sensação: me senti como o Forrest Gump, naquele momento clássico do filme em que ele coloca um tênis e passa a correr sem parar, sem objetivo algum.
Corre por correr. E passa a ser acompanhado por uma legião de pessoas que decidem que é o máximo simplesmente correr, sem qualquer objetivo, e veem nele uma espécie de profeta ou iluminado, sabedor de alguma verdade ou objetivo não revelado.
Naquele dia, depois que terminei, percebi que tinha corrido uma distância bem maior do que me imaginava capaz, depois de tanto tempo sem praticar. Mas a quantidade de quilômetros era apenas um número vazio.
O que realmente me deu prazer foi (re)descobrir meu corpo naquele movimento rítmico, constante e fluido, enquanto eu apreciava a paisagem azul-acinzentada do dia nublado, me divertia com a profusão de roupas fluorescentes que me atravessavam o caminho, identificava um a um, e todos ao mesmo tempo, os cheiros variados da orla, registrava os sons que vinham da praia e da rua, acolhia o vento no rosto úmido de um suor sem dor.  Desde então, passei a fazer exatamente isso: simplesmente corro, quando me dá vontade. 
Correr como “projeto despretensioso” não deixa de ser quase um contra-senso, já que a própria atividade e o verbo remetem a “objetivos”, “metas”, “fins”. Nas aulas de corrida na academia o foco é ganhar fôlego e velocidade. Ocorre que a velocidade excessiva me causa desconforto e sempre me faz refletir: afinal de contas, tô correndo de que? Pra quê? Pra onde? Por quê?
Devo dizer que respeito profundamente quem adotou a corrida como esporte de competição, treina tempos e velocidade e participa de provas. Embora eu definitivamente não tenha planos de me tornar maratonista, minha reflexão passa bem ao largo da questão do esporte e da competição esportiva.
Essencialmente o que eu me pergunto é pra que e por que corremos tanto, o tempo todo. A semana passou “voando”, dizemos. Vou dar uma “corrida ao banco”, planejamos. “Preciso correr”, é a expressão comum para dar tchau para alguém.  Vivemos atrasados, correndo atrás dos minutos perdidos em filas, engarrafamentos, processos burocráticos. “Não tenho tempo” é a desculpa mais comum da humanidade para não fazer um monte de coisas. Falta tempo, por isso precisamos correr, correr, correr. Deixamos de vivenciar as atividades que realizamos, na pressa de terminá-las e iniciar alguma outra. É um vício, uma mania.
Corremos tanto que nos esquecemos de cuidar de nós mesmos.  
Existe um famoso conceito, repetido e adaptado ao longo do tempo, de autoria atribuída a diversas pessoas: é mais proveitoso manter o foco na jornada, não no destino. O filósofo americano Ralph Emerson sugeria que se deve encontrar o final da jornada em cada passo do caminho e viver o maior número de boas horas. O existencialismo de Sartre pressupõe que a vida é uma jornada, construída à medida que se percorre a “caminhada existencial”. O budismo fala que o importante é o caminhar. O caminho é realizado ao caminhar.
Quando dava uma corrida recentemente, eu me peguei perguntando ao meu parceiro, entre uma lufada de ar e outra, há quanto tempo corríamos e quantos quilômetros já tinhamos completado. Sem saber a resposta, ele me perguntou: para que você quer saber tudo isso? Achei graça e voltei ao meu estado Forrest Gump: mais uma vez, corri sem contar o tempo, ou a distância.

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