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17 de fevereiro de 2015

Elba e Fafá de Belém dividem o palco no Marco Zero (PE)


"Elba é a rainha do Carnaval, e eu sou a 


princesa", diz Fafá de Belém

Leonardo Rodrigues
Do UOL, em Recife
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No Recife, Marco Zero abre Carnaval com Naná, Fafá e Elba

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13.fev.2015 - Elba Ramalho e Fafá de Belém dividem o palco na abertura do Carnaval no Marco Zero Sérgio Bernardo/JC Imagem
O Carnaval deste ano em Recife tem uma voz e uma risada. Pela primeira vez estrela de abertura da festa, no Marco Zero, ao lado de Naná Vasconcelos, Fafá de Belém também inaugurou seu camarote no Galo Madrugada. Lá, reuniu amigos, cantou e até desceu de surpresa na multidão.
Fafá é do tipo de artista que alinha atitude e discurso. Em entrevista exclusiva ao UOL, concedida no hotel em que estava hospedada, ela ressalta a importância da participação do povo no Carnaval. A festa é dele, e apenas para ele, o que torna tão especial a folia de Pernambuco, onde sempre bate cartão.
"[O Carnaval aqui] É maravilhoso porque resgata uma festa popular brasileira sem que as pessoas precisem pagar para se divertir", afirma Fafá.
A maratona este ano é especialmente intensa. Além das participações na abertura e no Galo –num intervalo de poucas horas--, ela promove outros quatro shows em polos espalhados pelo Estado. Como se quisesse tomar de Elba Ramalho o título de "rainha do Carnaval".
"Ela é a rainha, e eu sou a princesa", brinca, antes de proferir a mais famosa gargalhada da música brasileira. Mas Fafá também fala sério quando o assunto são as rádios, segundo ela, movidas apenas pelo interesse nefasto do mercado, e o tom da última campanha eleitoral.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
UOL: O que significa o Carnaval de Pernambuco para você?
Fafá de Belém: O Carnaval aqui é único, especialmente em Recife. Um Carnaval de família, onde todos estão na rua. Carnaval em que todo mundo pega sua fantasia e ninguém paga pra participar. É muito engraçado: passa o Réveillon e você já vê o pessoal com uma pena, uma correntinha, com uma tiara, brilho e flor.
É uma animação dos velhos Carnavais. Quando eu era criança, em Belém, acabava o ano novo e todo mundo já começava a se preparar para o Carnaval. Isso aos poucos foi morrendo. Acho que um Estado onde isso se mantém, independentemente dos blocos, é Pernambuco.
Em 2015 você é a estrela.
Esse ano foi muito especial para mim. Já cantei outras vezes no Marco Zero, mas nunca na abertura oficial do Carnaval de Recife. Foi emocionante porque tenho uma admiração muito grande pelo Naná, temos uma amizade de longa data. E ele sempre me falava da noite dos tambores silenciosos. A uns quatro anos eu vi pela primeira vez e fiquei muito tocada. Com as nações de maracatu, cada uma cultuando o seu orixá. É de perder a cabeça. Cantar Ave Maria com as 12 nações na percussão, sem nenhum instrumento de harmonia, foi emocionante.
E como foi estrear se camarote no Galo da Madrugada?
Faz parte das comemorações dos meus 40 anos de carreira. Foi pensando nos moldes do Varanda de Nazaré, que faço no Círio de Nazaré. Recebi o convite do Galo da Madrugada para a parceria. Fizemos uma varanda diferenciada, com o princípio de que mais de 200 pessoas dá confusão. Discutimos muito isso. Porque o camarote são 500 pessoas no mínimo. E eu dizia que não, senão tiraria a zona de conforto. Bato muito nessa tecla. Ficamos entre 200 e 250 pessoas.
E você desceu loucamente no meio da multidão
Desci. Foi um espetáculo. O Galo da Madrugada sempre surpreendendo, cada vez mais bonito, emocionante. Eu pedi pra descer. O combinado era ir até o palácio do governo, e de lá vir com o governador e prefeito. O sol estava à pino. E, pela multidão, a abertura atrasou um pouco. Tivemos que ir mais lentos. E eu fiquei preocupada com meus convidados dentro do camarote. Passamos rápido pela sede do governo, e eu não tomei banho no banheiro de Agamenon Magalhães (risos).
E depois, com muita simpatia, o prefeito foi nos encontrar no camarote. Mas foi lindo. Tivemos um camarote limpo. Era o camarote único branco. Uma coisa que a gente queria. Suja, mas é só por um dia. Ano que vem que só espero trazer alguma coisas do Pará, com sorvete da cairu e uma barraquinha de acaí.
Está tetando roubar o posto da Elba de "rainha do Carnaval de Recife"?
A Elba é a rainha do Carnaval de Pernambuco. Eu sou a princesa, estou na segunda categoria (risos). Foi lindo abrir o Marco Zero. Elba Ramalho é uma grande artista. Nós temos praticamente o mesmo tempo de carreira. Somos de uma mesma geração. De muito trabalho. Trabalhamos nos mesmos patamares. Entendemos o que é pegar um ônibus para chegar pro show. O que é viver de bilheteria. Entendemos o que é subir na garra e vontade.
O Carnaval aqui é bem eclético, com espaço para todos os ritmos regionais e internacionais. Acha que há algum conflito nisso?
Acho que não. É tudo muito harmonioso. Cada um de nós têm um sotaque diferente. Cada um canta a mesma música com olhar diferenciado. Sou de uma época em que todos cantavam que estavam todos juntos. Sou de uma época em que estivemos juntos lutando contra a ditadura, com todas as cores e matizes. Acho que o Carnaval de PE tem esse olhar exato, delicado, generoso e democrático, sobre a música popular brasileira.
Bandas como Calypso representam bem o som do Norte do Brasil?
Representam. Na verdade o Norte tem vários sotaques, desde a música erudita, com Waldemar Henrique, ao carimbó, que todos cantam. Passando pelo calipso, ao merengue, à cumbia, samba. Mas tem duas coisas marcam o Norte: nossa percussão que é grave, não é aguda, e temos muita influência caribenha. Somos mais ligados ao calipso, merengue e coisas do caribe do que ao samba de raiz. Pela influência caribenha e das Antilhas.
Você está completando 40 anos de carreira. Pensa em parar?
Só penso no Pará (gargalhadas). Parar nunca. Nunca quis ser cantora. Sempre gostei de música. E a música é a companhia de infância que permaneceu, desde que consigo me lembrar. Muitos amigos foram e voltaram e música estava lá. Me ensinando a chorar, me ensinando por que eu estava chorando. Me fazendo viajar no tempo, viajar pelo mundo. E nunca imaginei que ela me daria isso. É a coisa mais prazerosa da minha vida.
A gargalhada sempre te acompanhou também, né?
(Gargalhada) Acho que a minha risada é menos politicamente correta. A mais despudorada. A mais sem vergonha.
Falando nisso, você cantou no show "Quanta Ladeira", no Carnaval, fazendo versões de músicas famosas com letras de baixo calão. E esse ano ele foi canelado no festival Rec-Beat.

Ali é maravilhoso. O Carnaval começou, historicamente, fazendo crítica à sociedade. Se você vai ao teatro de revista, que herdamos dos portugueses, você já vê que era uma sátira pesada ao cotidiano. E o Carnaval reeditava um pouco isso, nas marchinhas irreverentes. Acho que o "Quanto Ladeira" é porta dos fundos do Carnaval pernambucano. Uma pena que esse ano não tenha sido realizado. Espero que isso seja repensado, porque é fundamental para o folião ter esse olhar totalmente anárquico e irreverente, cantando coisas que a gente canta quando é criança (risos).
Hoje, com os meios de digitais, é mais fácil ou difícil pra você gerenciar sua carreira?
Acho que não dá pra fazer essa comparação. Por exemplo, na nossa época nunca ninguém imaginou ter uma máquina para cantar afinado. O desafio de se cantar ao vivo é muito pior. Assim como não uso retorno "in-ear", que acho que afasta muito o artista do público.
Uma coisa que começou há 10, 15 anos atrás, é, como digo, a "cultura do gueto". Ou você é isso ou aquilo. Então aparecia um sertanejo, 200 sertanejos vinham atrás. a Aparecia um pagodeiro, 300 pagodeiros em seguida, assim como os funkeiros. Acho isso muito chato. Limita muito quem quer ouvir rádio. Eu não consigo ouvir as rádios convencionais hoje. Mas a internet possibilita você buscar o que quer ouvir.
O mainstream ficou muito estreito, muito limitado. As rádios hoje são programadas a partir da avenida paulista. Você chega no interior de Roraima e está ouvindo o mesmo roquinho ou sertanejo que está tocando em São Paulo. Isso não é a realidade da terra. Mas a das indústrias da música. Mas aí você tem a possibilidade da internet, para ver o que está acontecendo.
Você participou ativamente da campanha pelas diretas. Como vê o momento político do Brasil hoje?
A última eleição foi ridícula. Não se discutiu ideias. Trocou-se apenas acusações. Era nojento. Entrou-se na vida pessoas das pessoas de forma careta, velha, como nos anos mais negros da ditadura, quando você namorar mais ou menos era um conceito. Quando a orientação sexual era uma coisa "negativa".  Foi muito careta. Muito sangue.
Levaram o lixo pro centro do discurso. Com isso vi pessoas de partidos diferentes, de ideologias diferenciadas, praticamente se xingando de casa. Coisa que não acontecia antes. Isso não é política. É marketing barato. Marketing sujo.
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