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11 de junho de 2014

Petrobras não era 'casa de negócios', diz ex-dirigente investigado pela PF

Paulo Roberto Costa falou mais de 4 horas à CPI da Petrobras no Senado.
Ele disse que compra de refinaria no Texas, sob apuração, foi 'bom negócio'.

Felipe Néri e Mariana Oliveira Do G1, em Brasília
Suspeito de integrar um esquema criminoso, o ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa negou nesta terça-feira (10), em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado que investiga irregularidades na estatal, ter utilizado a companhia para se beneficiar em negócios. Durante as quatro horas e meia do depoimento boicotado pela oposição, ele também rechaçou as acusações de policiais federais de que uma "organização criminosa" teria se infiltrado na estatal do petróleo e que a empresa teria se tornado uma "casa de negócios".
Um dos 13 presos na operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), Costa é acusado de ter recebido propina e de ter envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que teria movimentado cerca de R$ 10 bilhões. Devido às acusações, ele ficou quase dois meses preso no Paraná. O processo está sob análise do Supremo Tribunal Federal (STF) em razão de suspeitas de envolvimento de parlamentares no caso.
"Repudio veementemente que a Petrobras era organização criminosa, que tinha outra pessoa que fazia lavagem de dinheiro, que foi dito pela impresa que eu tinha participação nos negócios, repudio. E coloco que a Petrobras não é nada disso do que está se falando. [...] Foram colocadas dezenas de fatos e situações irreais, que eu repudio veementemente, que a Petrobras era casa de negócios, que existia organização criminosa lá dentro", declarou o ex-diretor aos senadores.
Com exceção do presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), e do relator do colegiado, senador José Pimentel (PT-CE), apenas os senadores governistas Humberto Costa (PT-PE), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Vanessa Grazziotin (PC do B-AM) acompanharam praticamente toda a fala do ex-dirigente da Petrobras. Ao longo da audiência, os senadores Acir Gurgacz (PDT-RO), Anibal Diniz (PT-AC) e Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) fizeram breves intervenções.
Dizer que Paulo Roberto Costa comandava organização criminosa na Petrobras é uma maluquice"
Paulo Roberto Costa, durante depoimento à CPI da Petrobras no Senado
Sem a presença de oposicionistas, que vêm boicotando os depoimentos por conta da expressiva maioria de governistas na CPI do Senado, o ex-dirigente disse que a estatal não é uma "empresa bandida".
“Esta é uma ilação. Isso não tem sustentação e uma hora isso vai ter que ser esclarecido [...]. Isso que eu seria o líder da organização é uma falácia. A Petrobras nunca foi, não é e nunca será uma empresa bandida".
Costa é suspeito de receber propina do doleiro para favorecer empresas em contratos para a construção da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Os pagamentos teriam sido feitos entre 2011 e 2012. A obra de Abreu e Lima também é alvo de apuração por suspeita de superfaturamento.
Além de Paulo Roberto Costa, a Lava Jato também prendeu o doleiro Alberto Youssef, acusado de movimentar um mercado clandestino de câmbio e de pagar propina a agentes públicos. O ex-diretor da estatal foi solto por ordem do ministro Teori Zavascki, do STF, mas o doleiro continua preso. Isso porque há suspeita de lavagem de dinheiro decorrente do tráfico de drogas.
"Homem-bomba"
Questionado sobre as denúncias, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras afirmou estar "extremamente magoado" com o caso e disse que teve o nome "destruído" pela imprensa.
Depois, indagado sobre se era um "homem-bomba" que supostamente teria revelações sobre a Petrobras, afirmou: "Não existe homem-bomba nenhum. Dizer que Paulo Roberto Costa comandava organização criminosa na Petrobras é uma maluquice."
Pode se fazer auditoria por 50 anos que não vai se achar nada ilegal na Petrobras porque não há nada ilegal na Petrobras. Essa suposição de superfaturamento de Abreu e Lima não é real, é ilação que foi feita"
Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras
Ao responder um questionamento do relator da CPI, o ex-dirigente negou que tenha desviado dinheiro da Petrobras e que os valores teriam sido lavados pelo grupo do doleiro Alberto Youssef, como afirma o Ministério Público. Paulo Roberto Costa declarou ainda que não conhecia os outros investigados da Lava Jato, apenas Youssef.
"Pode se fazer auditoria por 50 anos que não vai se achar nada ilegal na Petrobras porque não há nada ilegal na Petrobras. Essa suposição de superfaturamento de Abreu e Lima não é real, é ilação que foi feita. Não existe organização criminosa, não sei o porquê de inventarem isso, mas é uma história inventada, fora da realidade. [...] Não existe lavagem de dinheiro da Petrobras para Alberto Youssef."
O ex-dirigente disse também que quando conheceu Youssef o doleiro tinha investimentos na área de hotéis e que soube que em 2005 ele respondeu pela atuação com mercado de câmbio. Depois de aposentado da estatal, em 2012, informou ter prestado serviço para Youssef, que queria verificar se valia a pena ou não a aquisição de uma empresa na área de petróleo. "Não tenho nenhuma relação com suas empresas [do Youssef]. Nao conheço os seus sócios."
A Petrobras errou em divulgar esse número. Era muito preliminar. Esse foi o erro que a Petrobras cometeu"
Paulo Roberto Costa, ao comentar custo da obra de Abreu e Lima, que passou de US$ 2,5 bilhões para US$ 18 bilhões
Para Costa, Petrobras fez 'conta de padeiro' sobre Abreu e Lima
O ex-dirigente negou que tenha ocorrido superfaturamento na obra da refinaria de Abreu e Lima. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU) a obra tinha valor inicial previsto de US$ 2,5 bilhões, mas o custo foi ampliado para US$ 18 bilhões.
Segundo Costa, que era presidente do Conselho de Adminsitração da refinaria, houve um "erro" da estatal em divulgar dados sobre o custo da obra antes da realização das licitações. Para ele, foi realizada uma "conta de padeiro". Paulo Roberto Costa se aposentou da empresa em 2012.
"A Petrobras divulgou em 2005 que custaria US$ 2,5 bilhões, e, como declarei à 'Folha [de S.Paulo]', esse dado era extremamente preliminar e a Petrobras errou em divulgar esse número. Era muito preliminar. Esse foi o erro que a Petrobras cometeu. [...] Não tínhamos ainda projeto da refinaria, DNA do petróleo e não tínhamos feito nenhuma licitação. [..] Não tem sobrepreço, não tem superfaturamento, não tem nada."
Costa também disse que a escolha de Pernambuco para a construção da refinaria ocorreu por conta da estrutura local e do potencial de mercado. “Onde tem porto no Nordeste para receber navio que tem porte para carregar petróleo? No Ceará, Pernambuco e Maranhão." E, segundo ele, Pernambuco era, entre esses três, o melhor mercado consumidor de derivados de petróleo.
Ex-diretor disse que não participou da compra de Pasadena
O ex-dirigente respondeu ainda perguntas de senadores sobre a compra da refinaria de Pasadena, no Texas. A transação, concretizada em 2006, é alvo de investigações do Ministério Público Federal (MPF) e do TCU devido a suspeitas de irregularidades. Paulo Roberto Costa, que era dirigente da empresa, é um dos investigados por suposto superfaturamento na aquisição.
Minha participação na negociação de Pasadena foi nenhuma, porque isso foi coordenado pela área internacional"
Paulo Roberto Costa, ao afirmar que não participou da negociação para compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos
Costa negou que tenha participado na negociação. "Minha participação na negociação de Pasadena foi nenhuma, porque isso foi coordenado pela área internacional. A parte de negociação não foi participação minha. Quando vim a participar desse assunto, quando foi levado para a diretoria, óbvio que discutimos. Achamos naquele momento que era um bom negócio e isso foi encaminhado para o Conselho de Administração."
Em depoimentos anteriores à CPI, a  presidente da Petrobras, Graça Foster, disse que o resumo executivo no qual o Conselho de Administração se baseou para aprovar a aquisição de Pasadena não continha duas cláusulas consideradas “importantes” para o negócio. Em nota oficial divulgada em março, a presidente Dilma Rousseff informou que havia se baseado em um parecer "falho" quando votou favoravelmente à compra porque o documento omitia as cláusulas Put Option e Marlim.
A Put Option determinava que, em caso de desacordo entre os sócios, a outra parte seria obrigada a adquirir o restante das ações. A Marlim garantia à empresa belga Astra Oil, sócia da Petrobras no negócio, um lucro de 6,9% ao ano.
Na minha opinião, independente das cláusulas, eu acho que foi um bom negócio para a Petrobras"
Paulo Roberto Costa, ao falar sobre compra de refinaria no Texas
Paulo Roberto Costa, embora tenha afirmado não participar das negociações, disse que considerou que, na ocasião, "foi um bom negócio independente dessas cláusulas". "No mundo inteiro pode-se fazer pesquisa de aquisições e vai se chegar à conclusão de que essa é uma cláusula comum [Put Option]. E a Marlim era importante para a Astra. Na minha opinião, independente das cláusulas, eu acho que foi um bom negócio para a Petrobras."
Segundo Costa, a compra era importante pela necessidade de o país investir em refino, e não apenas na produção do petróleo bruto. "Refinaria é algo muito importante e estratégico [...]. O Brasil estava numa situação complexa porque estava dependendo, como ainda depende de derivados. Então, na época era uma compra importante."
Investigado pela PF, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa presta depoimento à CPI do Senado que apura denúncias contra a estatal do petróleo (Foto: Weldson Medeiros / G1)Investigado pela PF, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa presta depoimento à CPI do Senado que apura denúncias contra a estatal do petróleo (Foto: Weldson Medeiros / G1)
 

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